Educação na pandemia

A crise está expondo as vantagens, mas também as limitações do ensino a distância

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 03h00

Segundo a Unesco, 1,6 bilhão de estudantes (mais de 90% dos estudantes de todo o mundo) foram afetados com o fechamento de escolas e universidades. Na educação básica, além dos problemas colaterais – como repor refeições nutritivas, aliviar a carga dos pais, dar suporte emocional às crianças –, há os desafios pedagógicos. Para enfrentá-los, o Todos pela Educação elaborou uma nota sobre a Educação na Pandemia estruturada em quatro mensagens.

A primeira é que o ensino a distância traz soluções, mas, considerando seu efeito limitado, é preciso planejar a normalização. Por meio de medida provisória, o governo federal flexibilizou o cumprimento dos 200 dias letivos, desde que mantida a carga horária mínima. Mas ainda há questões em aberto sobre o ensino remoto: como programar as atividades; que tipos de atividade devem contar para fins de equivalência; como será programado o calendário de exames nacionais, etc.

A China, por exemplo, providenciou exames online e uma plataforma nacional oferecendo recursos digitais, e a iniciativa privada se mobilizou para prover wi-fi e dispositivos móveis. Segundo o Todos pela Educação, no Brasil as redes estaduais são as que mais têm avançado nesses quesitos.

A segunda mensagem é que será preciso uma estratégia para mitigar as condições heterogêneas de acesso à rede digital. No Brasil, 99% dos estudantes da classe A têm acesso à rede, mas nas classes D e E são apenas 40%. O dado pede medidas que flexibilizem a disponibilização de internet às comunidades vulneráveis. O telefone celular, presente em 84% dos domicílios D e E, é um dispositivo-chave. Além disso, rádio e TV, com uma penetração de 96% nos domicílios brasileiros, podem ser decisivos.

Experiências internacionais, como a distribuição de dispositivos para alunos de baixa renda ou de manuais impressos (como na China, Portugal ou França), ou ainda opções mistas de ensino remoto, com televisão aberta para todos (como no México e Turquia), podem ser exploradas.

A terceira mensagem é que ensino a distância não é sinônimo de aula online. Há diferentes formas de estimular a aprendizagem remota, como a resolução de problemas complexos e a investigação e construção colaborativa do conhecimento. Um artigo do Fórum Econômico Mundial aponta que “a pandemia é uma oportunidade para nos relembrar das habilidades que os estudantes precisam nesse mundo imprevisível, como decisões embasadas, solução criativa de problemas e, talvez, acima de tudo, adaptabilidade”. É também uma oportunidade para testar sistemas de inteligência artificial que auxiliam estudantes com seus problemas específicos.

A última mensagem é de que, mesmo a distância, a atuação dos professores é central. A tecnologia pode “elevar o papel dos professores de transmissores do conhecimento adquirido para cocriadores de conhecimento”, disse Andreas Schleicher, diretor de Educação da OCDE. “Ela (a tecnologia) pode facilitar o acesso a materiais especializados muito além dos manuais (...) e apoiar novos meios de ensino que foquem nos estudantes como participantes ativos – precisamente as ferramentas de ensino que precisamos para o século 21.” É também o momento de estimular plataformas colaborativas entre os professores que viabilizem o compartilhamento de materiais, experiências e avaliações.

A pandemia está expondo as vantagens, mas também as limitações do ensino a distância. Para mitigar as últimas, será necessário um acompanhamento próximo de estudantes com propensão à evasão e avaliações diagnósticas acompanhadas de programas de recuperação. De todo modo, o Todos pela Educação alerta que este movimento “só terá chances de sucesso se for pautado pela lógica da coparticipação e parceria”, não só entre alunos e professores, mas entre professores e professores, escola e família e poder público e iniciativa privada. Se isso for feito, com doses de paciência, criatividade e prudência de parte a parte, “o aprendizado”, diz o Fórum Econômico Mundial, “pode se tornar um hábito que seja integrado às rotinas diárias – um verdadeiro estilo de vida”.

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