Efeito do aperto só começou, diz BC

Com juros altos, a atividade econômica deve arrefecer no 2.º semestre, segundo o relatório trimestral de inflação

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2022 | 03h05

Com o custo de vida subindo 8,8% até dezembro, a inflação vai novamente superar com folga o teto da meta, num quadro de juros altos e escasso crescimento econômico, segundo projeção do Banco Central (BC). Mais uma vez o presidente da instituição terá de enviar uma carta ao ministro da Economia para explicar o desvio e se justificar, mas isso em nada aliviará o aperto das famílias pressionadas pela carestia e pela perda de renda. Além disso, dificilmente a carta apontará com ênfase suficiente os efeitos inflacionários das ações irresponsáveis e populistas do presidente da República e de seus aliados.

No ano passado os preços ao consumidor aumentaram 10,06%, deixando longe o centro da meta, de 3,75%, e também o limite de tolerância, de 5,25%. Com o enorme encarecimento da comida e de outros bens essenciais, pobreza e insegurança alimentar aumentaram para dezenas de milhões de brasileiros. Para 2022 o centro do alvo foi fixado em 3,5%, com limite superior de 5%, e mais uma vez a onda inflacionária inferniza o dia a dia da maior parte da população.

A elevação do crescimento econômico esperado para o ano – de 1% para 1,7% – é um dos poucos pontos positivos do Relatório de Inflação recém-divulgado pelo BC. Publicado a cada três meses, esse documento apresenta um panorama da atividade global, da evolução recente e das perspectivas da economia brasileira. O balanço do primeiro trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) avançou 1%, e indicadores dos três meses seguintes, fortalecidos por estímulos ao consumo das famílias, foram alguns dos fatores considerados na revisão da estimativa para o resultado anual. Mas a expectativa é de arrefecimento da atividade no segundo semestre.

Os efeitos do aperto monetário – terapia contra a inflação – deverão aparecer mais nitidamente na segunda metade do ano, de acordo com o relatório. Repercussões dessa política, assinala o texto, já são perceptíveis, com elevação dos juros na maior parte das modalidades do crédito livre, isto é, isentas de regulação. Além disso, transferências oficiais, como o 13.º salário dos aposentados e pensionistas do INSS, já foram antecipadas no primeiro semestre. O crédito nominal deverá crescer 11,9%, bem menos que no ano passado (16,3%) e do que se previa em fevereiro (16,6%).

O Brasil deverá encerrar 2023 com inflação acumulada de 4%, segundo a projeção central, mas os juros só diminuirão lentamente nesse período. Até lá, a economia será afetada pelas duras condições internas de financiamento e por um cenário externo provavelmente desfavorável, ainda marcado por desarranjos decorrentes da invasão da Ucrânia, por pressões inflacionárias hoje muito fortes e pelo aperto monetário já iniciado nos Estados Unidos e esperado em outras economias avançadas.

O BC estima para este ano uma contração de 2,5%, no Brasil, nos investimentos em capital fixo, isto é, em máquinas, equipamentos e construções, incluídas obras de infraestrutura. Essa redução prejudicará o potencial de crescimento nos próximos anos.

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