Efeito Putin trava a recuperação

OCDE analisa como invasão da Ucrânia dificulta a marcha da economia na recuperação das condições pré-pandemia

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2022 | 03h00

Menor crescimento, inflação maior e novos entraves à recuperação pós-pandemia são custos imediatos da invasão da Ucrânia para a economia global. Antes da guerra, a expansão do produto mundial estava estimada em 4,5% em 2022 e 3,2% em 2023. Com o desarranjo dos mercados, problemas de suprimento e novas incertezas, o mundo poderá crescer 1 ponto menos do que se esperava. A alta de preços, já acelerada antes da guerra, poderá ganhar 2,5 pontos no primeiro ano a partir do conflito, impondo novos desafios aos bancos centrais e aos governos. As estimativas são da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada por 39 países desenvolvidos e emergentes. O Brasil é um dos candidatos, juntamente com a Argentina, a participar da associação.

Vencidos os primeiros choques e superado o impacto da Ômicron, a maioria das economias mais importantes deveria voltar em 2022 ou 2023 às condições anteriores à pandemia, segundo a OCDE. O crescimento mundial deveria retomar em 2023 a tendência quebrada pelo surto do coronavírus. Ao mesmo tempo, haveria reaproximação das condições de pleno-emprego. A vacinação, novamente valorizada pela OCDE, uma entidade fora dos padrões do presidente Jair Bolsonaro, contribuiu de forma importante para a recuperação. Mas o presidente Vladimir Putin assumiu o papel gradualmente abandonado pelo vírus, dificultando o retorno ao quadro econômico anterior à covid-19.

Sem citar o nome do autocrata russo, o documento da OCDE menciona em primeiro lugar, como “mais importante consequência da guerra na Ucrânia”, a perda de vidas, juntamente com a crise humanitária associada ao “enorme número de pessoas sitiadas e deslocadas”. Em segundo lugar aparecem os efeitos econômicos, nos preços de matérias-primas, na inflação e nas finanças. Em prazo mais longo, uma redivisão do mundo em blocos separados comprometerá os ganhos derivados da integração das economias.

De imediato, segundo a OCDE, os governos terão de encontrar meios de atenuar o impacto do encarecimento da energia. Também deverão buscar ações coordenadas para garantir o suprimento de comida e para sustentar os serviços de logística. Os bancos centrais terão de enfrentar, de novo, decisões complicadas de política monetária, balanceando, de acordo com as condições de cada país, o combate à inflação e a preservação da atividade econômica. Mas, além disso, “a guerra acentuou a importância de minimizar a dependência em relação à Rússia para a importação de itens fundamentais de energia” e de cuidar dos mecanismos – com os necessários incentivos – para a segurança energética e a transição verde.

Novos padrões de segurança energética e transição verde são temas negligenciados na agenda oficial brasileira. Ações para baixar os preços de combustíveis têm destaque nessa agenda, mas estratégias para a adoção de novos sistemas de energia são incompatíveis, hoje, com os padrões do Executivo. Talvez haja espaço para esses valores depois da próxima posse presidencial, em janeiro.

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