Em busca de força produtiva

Voltou-se a cuidar do potencial produtivo, mas sem retomar o padrão de 2019.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2021 | 03h00

A reação da economia, puxada principalmente pelo consumo, foi sustentada também pelo investimento produtivo, isto é, pela demanda de máquinas, equipamentos, construções e outros componentes do capital fixo, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Isso significa aumento da capacidade de produção e, em muitos casos, também pode indicar modernização das empresas e da estrutura pública. Em novembro, o total investido foi 3,1% maior que em outubro e 3,6% superior ao de um ano antes. As boas notícias incluem os dados trimestrais, mas apenas de curto prazo. No trimestre móvel até novembro houve aumento de 6,3% sobre o período imediatamente anterior, mas queda de 2,3% no confronto com os mesmos meses de 2019.

Confiança na evolução dos negócios é, em geral, o principal estímulo para a compra de máquinas, equipamentos e outros itens de capital fixo pelos empresários. A urgência de repor bens desgastados também pode entrar nos cálculos, mas esse fator pode ser afetado pela perspectiva de avanço da demanda.

Mesmo com algumas oscilações, a melhora das expectativas, depois do desastre de março-abril, foi um dos eventos mais positivos do ano passado. Depois dessa reação, no entanto, o empresariado já se mostra bem mais cauteloso do que há alguns meses, de acordo com algumas das últimas sondagens da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A maior cautela é observável mesmo entre os empresários ainda otimistas. Embora em território ainda positivo, isto é, acima de 50 pontos, o Índice de Confiança do Empresário Industrial diminuiu 2,2 pontos entre dezembro e janeiro, e chegou a 60,9, segundo pesquisa da CNI. A mudança ocorreu, informa o relatório, “em meio ao cenário de incerteza e com o fim das medidas emergenciais do governo de apoio às empresas e às famílias”. A pesquisa da FGV mostrou a piora, em janeiro, do Índice de Situação Atual e do Índice de Expectativas do empresariado, ambos abaixo de 100, isto é, da fronteira entre pessimismo e otimismo.

Esses indicadores seriam preocupantes mesmo se os investimentos, no ano passado, se houvessem recuperado inteiramente em relação ao nível de 2019. Mas nem isso ocorreu, de acordo com os números do Ipea. Apesar da retomada, mais sensível no segundo semestre, o total investido no ano foi 4,6% menor que o aplicado de janeiro a novembro do ano anterior. No acumulado de 12 meses a queda foi de 4,4%.

O investimento cresceu, até novembro, principalmente pela incorporação de máquinas e equipamentos pelas empresas. A soma investida naqueles dois itens aumentou 7,7% de outubro para novembro e superou por 9% o valor de um ano antes. No trimestre o avanço foi de 14%, mas a comparação com o período setembro-novembro de 2019 aponta recuo de 6,6%. No ano, o valor diminuiu 8%. Em 12 meses, encolheu 7,6%.

No caso da construção civil, os investimentos de novembro repetiram os de outubro e foram 0,5% menores que os de um ano antes. Na série trimestral houve aumento de 1,6%, no período até novembro, e perda de 0,1% em relação ao mesmo trimestre móvel de 2019. Houve recuo de 3% no ano e de 3,4% em 12 meses. Houve sinais de reativação no setor imobiliário privado, mas nenhum indício de melhora no setor público. O balanço geral foi muito ruim.

Os dados da produção industrial, divulgados na terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), parecem combinar com as informações do Ipea sobre o investimento fixo. A fabricação de bens de capital cresceu 2,4% em dezembro e foi 35,4% maior que a de um ano antes, mas no acumulado anual houve uma redução de 9,8%.

Informações organizadas pelo setor privado detalham o recuo do investimento público. Segundo a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), o total investido em rodovias pelo governo federal, em 2020, ficou em R$ 6,74 bilhões. Descontada a inflação, esse valor foi menor que o aplicado em 2010 (R$ 9,87 bilhões) apenas em manutenção de estradas. Isso afeta, obviamente, a eficiência geral da economia.

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