Emergência hídrica

Crise é a mais severa em mais de um século. O País precisa repensar sua matriz energética

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 03h00

Entre os meses de junho e setembro, o Brasil enfrentará a maior estiagem já medida em 111 anos de serviços meteorológicos no País. Na sexta-feira passada, o governo federal divulgou um alerta prevenindo contra a emergência hídrica em cinco Estados – Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, todos na região hidrográfica da Bacia do Rio Paraná. Segundo o documento, subscrito em conjunto pelo Sistema Nacional de Meteorologia (SNM), pela Agência Nacional de Águas (ANA) e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a situação é “severa” naquela área pois decorre da conjugação de dois fenômenos naturais: La Niña, que provoca a diminuição da temperatura das águas do Oceano Pacífico e reduz o volume de chuvas no sul do País; e a Oscilação Antártica (OA), que altera a pressão atmosférica na região.

A bem da verdade, o infortúnio meteorológico agrava uma situação que já era bastante delicada. Entre outubro de 2019 e abril deste ano, apenas em dezembro de 2019, agosto de 2020 e janeiro de 2021 choveu acima das médias previstas na Bacia do Rio Paraná, onde estão instaladas muitas hidrelétricas, como Jupiá, Ilha Solteira, Porto Primavera e Itaipu. “Durante a maior parte do tempo houve predomínio do déficit de precipitação, principalmente a partir de fevereiro de 2021. Essa característica se mantém no mês atual (maio), com acumulado parcial de 27 milímetros para a bacia, ou seja, abaixo do acumulado climatológico que é de 98 milímetros”, informa o alerta.

Em São Paulo a situação é particularmente preocupante, haja vista que no primeiro trimestre deste ano o Sistema Cantareira recebeu o menor volume de chuvas desde 2016. Atualmente, o volume de água nos reservatórios do Estado é o menor desde 2013 (ver editorial O espectro da crise hídrica, publicado em 6/4/2021).

No dia 24 passado, o Operador Nacional do Sistema (ONS) anunciou um “pente-fino” em todas as usinas térmicas instaladas e em operação no País para determinar a capacidade de geração de energia de forma compatível com a das usinas hidrelétricas, diante da iminente queda no volume das águas. “Considerando o final do período chuvoso nas principais bacias integrantes do Sistema Interligado Nacional (SIN) e os baixos níveis de armazenamento alcançados nos principais reservatórios de regularização, torna-se imprescindível a maximização da disponibilidade de geração térmica para garantir atendimento eletroenergético”, escreveu a diretoria do ONS em documento enviado às empresas gestoras das térmicas, ao qual o Estado teve acesso.

A geração de energia por meio de usinas térmicas – hoje responsáveis por 25% de toda a potência instalada de geração de energia no País – proporciona flexibilidade para melhor gerir o volume e a duração da produção, o que é inviável em usinas que dependem primordialmente das condições da natureza, como é o caso das usinas hidrelétricas, eólicas e solares. Contudo, esta flexibilidade tem alto custo, tanto em termos financeiros como ambientais. Os consumidores pagam uma tarifa bem mais cara pela energia gerada pelas térmicas. E há os danos causados ao meio ambiente pela queima de carbono, que libera gases capazes de provocar efeito estufa. Trata-se, portanto, de um meio absolutamente contingente, necessário apenas para dar segurança energética ao País. Hoje, contudo, as térmicas operam a plena carga, de acordo com o ONS.

O Ministério de Minas e Energia (MME) descarta a possibilidade de racionamento de energia ou de “apagões” no País no período crítico, até setembro. Em audiência pública na Câmara dos Deputados, no dia 11 passado, o ministro Bento Albuquerque, no entanto, reconheceu que serão necessárias “medidas excepcionais” para garantir o abastecimento de energia no País.

A excepcionalidade, como já dito, custa muito caro. O Brasil não pode ficar à mercê das térmicas a cada crise hídrica. Esta será a mais “severa”, mas não é a primeira e tampouco será a última. Urge, pois, repensar a composição de nossa matriz energética. Seja pela necessidade doméstica, seja pelo alinhamento do País ao mundo civilizado, que vê as mudanças climáticas como o maior desafio global a ser enfrentado depois da pandemia de covid-19.

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