Empatando com Dilma

Inflação acumulada em 12 meses já igualou à taxa do ano-calendário de 2015, uma das façanhas da gestão petista

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 03h00

Disparada, a inflação bateu mais um recorde sinistro no mês passado, quando os preços pagos pelas famílias subiram 1,25%, a maior taxa para um mês de outubro desde a alta de 1,31% em 2002. A vacinação tem atenuado o risco da pandemia, mas nenhum imunizante protege a população contra o encarecimento dos bens e serviços essenciais à vida. Batalhando com muita dificuldade para comprar o necessário à sobrevivência, o brasileiro já enfrentou um aumento de preços de 8,24% nos dez meses a partir de janeiro. A variação acumulada em 12 meses, de 10,67%, igualou a do ano-calendário de 2015, um dos marcos inesquecíveis do governo da presidente Dilma Rousseff. O presidente Jair Bolsonaro ainda terá mais de um ano para superar a desordem econômica e o desarranjo fiscal criados por sua antecessora petista. Ele tem se esforçado para isso e é justo reconhecer seu empenho.

Ninguém pode negar, também, a amplitude do desastre. Em outubro os aumentos de preços ocorreram nos nove grandes grupos de itens cobertos pela pesquisa, assim como em todos os Estados e no Distrito Federal. A capital do País entra nessa história de duas formas, como área atingida pela inflação e como local de origem de pressões inflacionárias. No cenário brasiliense ocorreram, por exemplo, as omissões e ações no tratamento incompetente da crise hídrica, prevista há muito tempo, e de seus efeitos na produção de eletricidade e em outras formas de uso.

A capital federal tem sido também o palco principal das ações bolsonarianas, concentradas em interesses particulares, distantes das obrigações governamentais e perigosas para as contas públicas. Insegurança e instabilidade cambial têm sido efeitos notórios desse comportamento, com reflexos inegáveis na inflação e nas expectativas, mais pessimistas a cada semana, de crescimento econômico neste e nos próximos anos.

Quando a inflação se acelera e se espalha, como tem ocorrido no Brasil, é um tanto fantasioso buscar os vilões, como se dizia antigamente, em cada divulgação de um novo balanço mensal. Há uma clara metástase inflacionária e esse é o dado mais importante para quem deve, como os dirigentes do Banco Central, cuidar da terapia. Mas vale a pena, com realismo, apontar os aspectos mais dolorosos desse desarranjo, como a alta dos preços da alimentação, o encarecimento do transporte público e o aumento dos preços da eletricidade e do gás de cozinha, com taxas acumuladas em 12 meses de 11,71%, 9,80%, 30,27% e 35,90%, respectivamente, segundo os últimos dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Cotações internacionais e desajustes nas cadeias de abastecimento, observados globalmente, explicam apenas em parte o surto inflacionário no Brasil. O desarranjo cambial, a incompetência do poder central e a insegurança dos empresários são fatores importantes para entender por que a inflação brasileira tem sido uma das três maiores dos países-membros do Grupo dos 20 (G-20). Também isso diferencia o desempenho do presidente Bolsonaro.

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