Empregos em conta-gotas

Na contramão do mundo, o Brasil segue com alto desemprego e consumo em lenta recuperação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 03h00

Desemprego menor é sempre bem-vindo, mesmo quando os desempregados ainda são 14,4 milhões, grupo equivalente a 14,1% da força de trabalho, de acordo com o balanço do segundo trimestre. Mas seria exagero festejar a melhora. As filas de gente em busca de vagas, ainda muito longas, são pouco menores que no trimestre anterior. No período de janeiro a março os desocupados, 14,8 milhões de trabalhadores, eram 14,7% da população economicamente ativa. Enquanto a ocupação pouco aumentou, o dinheiro encolheu. Entre um período e outro o rendimento médio habitual do brasileiro ocupado ficou 3% menor, passando de R$ 2.594 para R$ 2.515.

Na contramão da maior parte do mundo, o Brasil apresentou, entre abril e junho, condições de emprego piores que as de um ano antes, quando o País sofreu o primeiro grande impacto da pandemia. No segundo trimestre de 2020 os desempregados eram 13,3% da força de trabalho. Os ocupados ganharam em média R$ 2.693 por mês. Em quase todo o mundo emergente e desenvolvido, houve melhora nas condições de trabalho e de rendimento, depois do grande choque, mas o ganho dos brasileiros diminuiu 6,6% entre os dois períodos.

O desemprego no Brasil tem sido mais que o dobro da média registrada em 37 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essa média estava em 6,6% em junho. Na zona do euro estava em 7,7%, pouco acima da metade da taxa brasileira. Nos Estados Unidos estava em 5,9%. No mês seguinte chegaria a 5,4%. Mas a desvantagem dos trabalhadores brasileiros fica mais visível, e mais escandalosa, quando se levam em conta alguns detalhes adicionais, como os problemas de nutrição de cerca de 19 milhões e a inflação acima de 9% em 12 meses. Além de escasso, o rendimento familiar dos brasileiros ainda é sensivelmente corroído mês a mês pela alta de preços.

Mas o quadro geral fica mais inquietante quando outros detalhes são observados. Um dado positivo à primeira vista foi a redução dos desalentados. O número diminuiu 6,5% entre o primeiro e o segundo trimestres e chegou a 5,6 milhões, 5,2% da força de trabalho. Mais pessoas, portanto, julgaram valer a pena ir em busca de uma ocupação. Pode ser um sinal de otimismo. Pode ser também uma indicação mais forte da urgência de buscar algum dinheiro.

Essa premência pode ser, também, a explicação do aumento dos trabalhadores por conta própria. Com expansão de 4,2% entre o primeiro trimestre e o segundo, chegou-se a 24,8 milhões de pessoas, um recorde na série histórica. Tantos brasileiros estarão descobrindo uma vocação para o empreendedorismo? Em um ano esse contingente aumentou 14,7%. Mas 62,7% desses empreendedores assumiram a nova atividade informalmente, isto é, sem CNPJ. Estariam atendendo a uma vocação recém-descoberta ou apenas buscando uma alternativa a uma inacessível ocupação assalariada?

Outro recorde na série histórica foi o número de subocupados por insuficiência de horas de trabalho. Esse contingente, formado por 7,5 milhões de trabalhadores, foi 7,3% maior que o do primeiro trimestre e 34,4% mais numeroso que o de um ano antes.

Somados os desempregados, desalentados, subocupados e outros simplesmente desperdiçados, apesar de seu potencial produtivo, chega-se a um total de 32,2 milhões de subutilizados, número 3% inferior ao do primeiro trimestre, mas ainda muito grande.

Houve aumento de ocupação em agropecuária, pesca e aquicultura, construção e em vários serviços. Na indústria e no comércio a criação de empregos tem sido lenta e insuficiente para alterar o quadro geral e – muito importante – para promover a melhora das condições salariais.

A retomada econômica tem sido insuficiente para favorecer o emprego e o aumento da remuneração dos trabalhadores. O desemprego elevado e os ganhos muito baixos limitam o consumo, dificultando o avanço da produção industrial. Há uma circularidade nociva, reforçada pela insegurança criada pelo governo. Mas o ministro da Economia insiste em falar do Brasil como um país invejável por seu dinamismo.

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