Empresários pelo clima

Boa parte do empresariado está fazendo a sua parte em prol do meio ambiente

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2021 | 03h00

Em carta aberta, presidentes de 105 empresas nacionais e estrangeiras e de 10 entidades setoriais defenderam metas ambientais ambiciosas e o protagonismo do Brasil nas negociações do clima. Às vésperas da Cúpula do Clima da ONU (COP 26), a ser realizada em Glasgow em novembro, a iniciativa coordenada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) chama a atenção por dois motivos: o contraste entre o engajamento do setor produtivo e a incúria do governo; e o fato de que os ideais defendidos na carta são alicerçados por ações concretas por parte dos signatários.

“É possível trazer escala à inovação e às boas práticas e planejar estrategicamente para que o Brasil realize rapidamente o seu potencial de crescimento sustentável”, diz a carta, “promovendo uma retomada verde (green recovery) fundada em bases de economia circular, de baixo carbono e de inclusão.” Entre as iniciativas das empresas estão medidas para a redução e compensação das emissões de gases de efeito estufa (GEE), a precificação interna de carbono, a descarbonização das operações e cadeias de valor, investimentos em tecnologias verdes e o estabelecimento de metas de neutralidade climática até 2050.

Das 38 emissões de títulos de dívida de empresas brasileiras no exterior em 2021, 16 (42%) foram ESG (sigla em inglês para boas práticas “ambientais, sociais e de governança”). É mais do que o dobro das sete de 2020. Das 13 emissões previstas até novembro, pelo menos metade comporta compromissos de sustentabilidade.

Segundo um estudo apoiado pelo CEBDS, é possível, já em 2025, reduzir as emissões de GEE em até 43% em relação aos níveis de 2005. Os executivos defendem a adesão a metas baseadas em conceitos científicos e práticas de transparência financeira, com a adoção de mecanismos de financiamento para a promoção da transição climática e o combate enérgico ao desmatamento. Particularmente importante é a implementação integral do RenovaBio, a recém-aprovada política de pagamento por serviços ambientais.

Dos 2,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono emitidas pelo Brasil em 2019, quase metade decorreu do desmatamento, e 98% desse desmatamento é ilegal. Assim, a primeira e mais importante demanda do empresariado, em linha com entidades e governos internacionais, é simplesmente que o governo faça valer as leis brasileiras, em particular o Código Florestal.

Além disso, os executivos pedem um arcabouço político-regulatório que apoie uma trajetória sustentável, em especial a adoção de regras que possibilitem o desenvolvimento de mercados de carbono voluntários e regulados. A possibilidade de compra de créditos de carbono por parte das empresas para financiar atividades que compensem seus déficits em relação às metas climáticas é um mecanismo crucial previsto no Acordo de Paris, mas até o momento permanece não regulamentado. A pauta será central na COP 26.

Os empresários solicitaram encontros com os ministros de Meio Ambiente, Relações Exteriores, Economia e Agricultura. “Na carta, estamos dizendo ao governo: ‘por favor, avance, pois nós vamos dar a retaguarda’”, disse a presidente do CEBDS, Marina Grossi. “Para fora do Brasil, estamos mostrando que o País tem grandes empresas e instituições, com um peso grande do PIB, fazendo a coisa certa.”

Um levantamento do Programa de Investimentos Verdes no Brasil identificou a necessidade de R$ 3,6 trilhões nos próximos 20 anos em obras de infraestrutura sustentáveis nos setores de energia, iluminação pública, saneamento, gestão de resíduos sólidos, telecomunicações, transporte urbano, portos, hidrovias e ferrovias. Estima-se que esses investimentos poderiam gerar 2 milhões de empregos.

Como disse Denise Hills, diretora de sustentabilidade da Natura, “os ganhos para o Brasil não serão só em termos financeiros, mas também socioambientais e reputacionais”. Nada sugere que a insensibilidade do Planalto aos dois últimos ganhos seja remediável. Se ao menos o primeiro servir para que o governo faça a sua parte, já será um avanço.

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