Empresas e famílias em modo de espera

Consumidores e empresários entram em 2022 com índices de confiança muito moderados, segundo últimas pesquisas

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2022 | 03h05

Se depender do consumidor, empobrecido e com menor acesso ao crédito, os negócios vão continuar em marcha lenta em 2022, a julgar pelas últimas sondagens da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Motor principal da economia brasileira, o consumo familiar continua limitado pelas condições do mercado de trabalho, pela inflação elevada – fator de corrosão da renda mensal – e pelo aumento de juros, previsto para continuar nos próximos meses. Em dezembro, a confiança do consumidor subiu 0,6 ponto e chegou a 75,5, segundo a FGV, mas continuou em território negativo, isto é, abaixo de 100. Na pesquisa da CNC, a intenção de compra do consumidor atingiu 74,4 pontos no fim do ano, o maior nível desde maio de 2020, permanecendo, no entanto, abaixo da área de satisfação. 

A inflação poderá recuar neste ano, mas ainda ficará acima do limite de tolerância, se for confirmada a última projeção do mercado, de 5,03%, de acordo com a pesquisa Focus. A meta de 2022 é de 3,5% e o teto, 5%. Mesmo com menor intensidade, a alta de preços continuará comprometendo o orçamento das famílias. A taxa básica de juros alcançou 9,25% em dezembro e poderá atingir 11,5% até o fim de 2022, de acordo com as previsões correntes. Isso poderá conter o impulso inflacionário, mas com efeito negativo nos negócios. Tanto consumidores quanto empresários deverão ser cautelosos, em face do financiamento mais caro.

O aumento das desigualdades também se reflete nos índices de confiança coletados pela FGV. No mês, a média de confiança dos consumidores de renda mais baixa alcançou 65 pontos, com alta de 0,3 ponto. Com aumento de 1,8 ponto, o indicador do grupo mais abonado chegou a 85,6. A diferença de 20,6 pontos foi a maior da série iniciada em 2005.

O entusiasmo também é contido na área empresarial, de acordo com a FGV. Em conjunto, a confiança dos empresários caiu 1,8 ponto em dezembro, na terceira queda mensal consecutiva. Tendo chegado a 95,2 pontos, permaneceu fora da área positiva. Os dois indicadores continuaram abaixo daqueles anotados em fevereiro de 2020, no mês anterior ao primeiro choque da pandemia.

Na área empresarial, só se registrou aumento de confiança no setor da construção, com o indicador atingindo 96,7 pontos. Houve quedas no comércio, na indústria e nos serviços. No caso da indústria, o indicador (100,1), mesmo com esse novo recuo, permaneceu ligeiramente acima da linha divisória, denotando muita cautela diante de um cenário de muitas incertezas.

O otimismo exibido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, tem sido muito menos contagioso que a covid-19 e a gripe. Ele e sua equipe terão de ser muito mais eficientes na formulação e na execução de medidas de ajuste e de crescimento, se quiserem mesmo transmitir confiança a empresários e consumidores. Mas isso dependerá de suas qualidades técnicas e administrativas e das decisões do presidente da República, aparentemente mais atento às demandas do Centrão do que às necessidades da economia nacional.

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