Empresas fora do radar oficial

Longe do dia a dia, governo falha no socorro de crédito a pequenas empresas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2020 | 03h00

Nenhum golpe de gênio impedirá um desastre econômico neste ano, mas os danos poderiam ser menores com um pouco mais de eficiência no desenho e na execução das políticas – por exemplo, no fornecimento de crédito a pequenas empresas. Com menor fôlego financeiro, são as menos capazes de sobreviver a uma crise severa, mas são também a maior fonte de empregos e compõem a maior parte da atividade econômica. Hoje essas empresas precisam de crédito como os doentes mais graves precisam de oxigênio. No entanto, os pequenos negócios têm enorme dificuldade para obter financiamento, como relata o Sebrae, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Segundo informe recém-distribuído, 86% das pequenas firmas em busca de financiamento ou tiveram seus pedidos negados ou ainda esperavam resposta no começo de maio. A história cobre todo o período desde o início do distanciamento social.

Boas intenções têm sido insuficientes para produzir resultados em várias ações anticrise iniciadas pelo governo. Nas políticas de crédito, assim como na distribuição de ajuda a trabalhadores informais e de baixa renda, a realidade tem ficado muito além da imaginação da equipe econômica. Há um abismo entre seus programas bem comportados e as condições efetivas de uma grande e variada população, espalhada num território continental e caracterizada por amplas desigualdades. Com menos burocracia, mais atenção aos objetivos e mais espírito prático, a equipe de governo dos EUA tem conseguido chegar mais facilmente a quem necessita de auxílio, apesar da dimensão dos programas, já superiores a US$ 2 trilhões.

Não se trata, no caso do crédito procurado por pequenos empreendedores, de mais uma queixa publicada por uma entidade do setor privado. Se fosse, mereceria atenção e muito interesse. Mas o Sebrae tem características especiais. Criado em 1972 como ferramenta oficial para apoiar o empreendedorismo, funciona desde 1990 como órgão social sem fim lucrativo. Mas opera em parceria com o governo e em seu conselho deliberativo há representantes do setor privado e do setor público. Entre esses há alguns designados por bancos oficiais.

Três pesquisas foram realizadas – em março, no começo de abril e no começo de maio. Na terceira, conduzida de 30 de abril a 5 de maio, 59% dos consultados disseram precisar de crédito para operar sem demissões e 38% informaram haver pedido empréstimo. Apenas 14% haviam conseguido financiamento, 28% esperavam resposta e 58% haviam recebido resposta negativa. As taxas de sucesso foram de 31% nas cooperativas de crédito, 12% nos bancos privados e 9% nos bancos públicos. No terceiro levantamento, 89% informaram ter perdido receita. A perda média havia sido de 60% em relação ao período anterior às políticas de isolamento.

Os problemas encontrados pelas empresas pequenas – e também por muitas médias – prenunciam, além dos efeitos de curto prazo, maiores dificuldades para a reativação da economia. Companhias sobreviventes serão contaminadas pelos calotes e pela redução adicional da demanda, resultante da maior desocupação. Na hora da reativação haverá muita mão de obra disponível, mas o número de empresas em condições de retomar os negócios terá sido desfalcado.

Ampla capacidade ociosa é um ativo precioso nas fases de recuperação, porque permite retomar o crescimento sem a necessidade de investir em capacidade produtiva. Não há capacidade ociosa em empresas falidas.

Segundo o presidente do Sebrae, Carlos Melles, as dificuldades de acesso ao crédito podem estar associadas a vários fatores, como juros altos, excesso de burocracia e falta de garantias para as operações. A busca de soluções inclui a mobilização de recursos para um fundo de aval. Já se têm obtido resultados, acrescentou. Mas a perda de tempo e o agravamento dos problemas comprovam, mais uma vez, a distância entre os gabinetes ministeriais e o Brasil real. Essa distância obviamente aumentou no atual governo.

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