Encruzilhada na Ucrânia

Apaziguar Putin e buscar ‘vitória total’ seria irresponsável. Ucrânia e aliados têm de achar meio-termo entre paz e justiça

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2022 | 03h00

Idealmente, Ucrânia e Rússia estariam provendo o mundo com energia e alimento abundantes. A Ucrânia seria uma ponte entre a Europa e a Rússia, a qual seria uma ponte entre o Ocidente, a China e o Oriente, em um mundo seguro e economicamente aberto. Mas esse ideal de paz, justiça e prosperidade nunca esteve tão distante.

As perspectivas são inquietantes em razão de uma dissonância entre o poder e a legitimidade. As pretensões de Vladimir Putin são ilegítimas. Mas ele tem poder para ferir a Ucrânia e ameaçar o mundo com a destruição em massa. Algum compromisso entre a justiça e a paz será necessário.

Do ponto de vista geoestratégico, a Ucrânia praticamente já concedeu a demanda mais importante de Putin: a neutralidade. A incerteza está na disputa por território.

Legitimamente aflitos com as mortes, a fome, a inflação e o risco de uma guerra mundial, os pacifistas querem apaziguar Putin: o Ocidente deveria reduzir o apoio a Volodmir Zelenski e forçá-lo a ceder territórios. Mas talvez seja imprudente ignorar a advertência da primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas: “É muito mais perigoso ceder a Putin do que provocá-lo”.

Se Putin levar tudo, vai se fortalecer em casa e mais cedo ou mais tarde tentará abocanhar mais pedaços da Ucrânia – ou da Geórgia, Moldávia e mesmo dos Estados Bálticos. Os déspotas concluirão que o crime compensa. Por isso, o “partido da justiça” quer escalar as hostilidades até Putin devolver todos os territórios, mesmo a Crimeia, e, no limite, ser deposto e responder por seus delitos.

A solução, obviamente, está no meio.

A hora da negociação não chegou, porque as partes ainda não atingiram o que os estudiosos chamam um “impasse mutuamente danoso”. Putin ainda não agrediu o suficiente. Mas uma janela de oportunidades está se abrindo. O embargo europeu ao petróleo russo e as armas dos americanos podem pesar a balança a favor de Kiev e é preciso se preparar para a negociação.

A guerra é da Ucrânia, e cabe a ela decidir o momento. Mas ela não solucionará o conflito sozinha. O Ocidente precisa articular seus termos para negociar uma nova arquitetura de segurança com Putin. Além da neutralidade da Ucrânia, com todas as suas garantias, isso implicará pactos sobre armas convencionais e nucleares.

Neste instante, não há espaço para um acordo sobre território aceitável para Putin e Zelenski. Mas isso pode mudar. A justiça demanda que um cessar-fogo só comece quando os russos recuarem à situação pré-24 de fevereiro. Mas um acordo pode ser arquitetado para garantir um status especial a Donbass, com forças internacionais garantindo a paz e eleições livres para a população, por meio das quais ela possa decidir seu destino.

É crucial que o Ocidente tenha sangue-frio e modere sua retórica belicosa. É preciso continuar pressionando Putin militar e economicamente e, ao mesmo tempo, reservar-lhe uma saída “honrosa”.

Idealmente, a Ucrânia e seus aliados deveriam lutar “até o último homem” para consumar a combinação da justiça e da paz. Realisticamente, se o fizerem, arriscam-se a perder ambas.

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