Endividamento para sobreviver

Mesmo com juro alto, consumidor recorre a empréstimos para liquidar compromissos e cobrir gastos diários

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2022 | 03h00

Tomar um empréstimo para pagar outro virou solução normal para muitos consumidores, forçados a malabarismos financeiros num ambiente de preços altos, dinheiro curto e muita conta pendurada. A busca de crédito por pessoas físicas foi em maio 11,2% maior que um ano antes, segundo a Serasa Experian. A crescente procura de empréstimos pode parecer estranha, numa fase de juros muito altos e com perspectivas de novos aumentos nos próximos meses. A taxa básica já atingiu 13,25% e deve ser mais uma vez elevada em agosto pelo Banco Central (BC), podendo chegar a 13,50% ou mesmo a 13,75%. O custo para o tomador do financiamento é muito maior, mas, ainda assim, o endividamento cresce como se o dinheiro estivesse muito mais barato.

O aparente mistério é explicável, no entanto, pela própria crise. “Os consumidores, mesmo com a alta da taxa de juros, continuam atuando com o modelo de consumo por necessidade e utilizando o crédito para honrar compromissos financeiros, além de complementar o pagamento de itens e serviços prioritários que não puderam ser pagos com o orçamento mensal habitual”, diz o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi. Em outras palavras, o brasileiro se endivida para comer, morar e tocar a vida no dia a dia e para empurrar outras dívidas para a frente.

Em maio, a busca por crédito cresceu nas cinco faixas de renda analisadas. Na mais baixa, com ganho mensal de até R$ 500, o aumento foi de 11,3% na comparação interanual. Na segunda mais alta, com renda entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, a variação foi de 13%, pouco superior à observada no grupo mais abonado (12,9%).

O cenário de grande aperto inclui aumento de inadimplência. Em abril, também segundo a Serasa Experian, 66,13 milhões de pessoas ficaram com o nome em vermelho. Esse número, recorde na série iniciada em 2016, superou por 3 milhões o de um ano antes. O quadro piorou velozmente a partir de setembro de 2021 e entre dezembro e abril houve um acréscimo de 2 milhões no total de inadimplentes.

O aperto maior dos consumidores coincide com a aceleração da alta de preços, num ambiente de desemprego em torno de 10% da força de trabalho. Nos 12 meses até maio os preços ao consumidor subiram 11,73%, pouco menos que no período encerrado em abril (12,13%). Nos 12 meses até maio de 2021 a alta havia sido de 8,06%. No período terminado em janeiro do ano passado a variação havia ficado em 4,56%.

Com o desarranjo dos preços, o BC apertou sua política, elevando os juros. Com juros mais altos e crédito mais escasso, esperava-se esfriamento dos negócios e redução das pressões inflacionárias. O efeito do aperto é normalmente defasado, mas a persistência da inflação tem sido surpreendente, como reconhecem dirigentes da instituição. As incertezas e a instabilidade cambial motivadas pelo presidente da República estão entre os fatores de realimentação inflacionária. Diante da inflação resistente, o BC prolonga o aperto de crédito, dificultando a atividade empresarial e complicando a vida de consumidores já endividados.

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