Ensino superior e planejamento

Além de problemas administrativos e falhas técnicas nas plataformas digitais, o erro cometido pela Univesp em seu projeto de expansão dos últimos anos foi de planejamento

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 03h00

A trajetória da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), a única a oferecer cursos na modalidade de ensino a distância, é mais uma demonstração de que muitos problemas do ensino – especialmente o superior – não decorrem da escassez de recursos, mas da falta de planejamento. 

Criada em 2012, a partir de um programa de expansão do ensino superior público estadual, com atuação junto à USP e à Unicamp, a Univesp iniciou suas atividades em 2014, oferecendo 3,3 mil vagas naquele ano e mais 918 no ano seguinte. Como os cursos têm a duração média de quatro anos, sua primeira turma se formou no final de 2018. No entanto, por causa da alta taxa de evasão e da baixa procura, o saldo foi frustrante. Em dezembro do ano passado, formaram-se somente 174 alunos. E, atualmente, há apenas 737 alunos em fase final de conclusão do curso – ou seja, menos de 30% do número de ingressantes da primeira turma. 

Nos últimos quatro anos, o número de vagas oferecidas nos cursos de graduação pela Univesp passou de 3,3 mil em 2014 para 42 mil em 2018, das quais 21,6 mil foram ofertadas no vestibular de agosto. No primeiro semestre do ano passado, a taxa média de desistência foi de 32%. Ou seja, como a instituição tem custos fixos, a evasão e a baixa demanda acabaram resultando em vultoso desperdício de recursos públicos, num momento em que o governo estadual, a exemplo do que ocorre em outras unidades da Federação, vem sendo obrigado a ajustar suas finanças por causa da recessão econômica e, por tabela, da queda na arrecadação.

“A Univesp se esforçou para ampliar o número de vagas e de cursos ofertados, mas não tem conseguido fazer esse aluno ficar e se formar, o que deveria ser o mais importante”, reconhece o presidente da instituição, Rodolfo Azevedo. Para tentar mudar esse quadro, ela abrirá só 5 mil vagas no próximo vestibular, previsto para agosto. E também tentará redimensioná-las de acordo com as demandas regionais. 

Além de problemas administrativos e falhas técnicas nas plataformas digitais, o erro cometido pela Univesp em seu projeto de expansão dos últimos anos foi de planejamento. Apesar de ter dado prioridade a regiões afastadas da Grande São Paulo, onde não existe nenhum curso superior público, a Univesp não teria levado em conta o tamanho e as especificidades socioeconômicas de cada município. Em média, 1% da população de cada município conclui o ensino médio a cada ano. Portanto, numa cidade com 10 mil habitantes, a Univesp deveria oferecer no máximo 100 vagas – e, mesmo assim, sob o risco de não preenchê-las. Em algumas cidades, a oferta foi duas vezes e meia maior. Um caso ilustrativo é o de Borborema, cidade de 14 mil habitantes na região de Araraquara, onde foram oferecidas 100 vagas para o curso de Engenharia de Produção, no último vestibular. De lá para cá, porém, continuam frequentando as aulas apenas 19 alunos. 

Outro problema enfrentado foi o ingresso de alunos com formação deficiente no ensino médio nas disciplinas de ciências exatas e biológicas. Como não tiveram acompanhamento durante os estudos para sanar essa deficiência, eles enfrentaram dificuldades para acompanhar as disciplinas da graduação mais difíceis. Por isso, nessas duas áreas a evasão foi de quase 40% no primeiro semestre do ano passado. Para tentar evitar que esse problema se repetisse neste ano, a Univesp contratou 800 bolsistas, que são pós-graduandos da USP, Unicamp e Unesp, para acompanhar esses alunos e resolver suas dúvidas. 

Ineficiência administrativa e falta de planejamento em ensino superior custam caro para a sociedade. Além de desperdiçar recursos escassos, dificultam a formação de capital humano, condição indispensável para que o País ocupe espaços maiores no mercado mundial. E, por oferecer ensino de baixa qualidade, que não as capacita para novas profissões, as novas gerações acabam condenadas ao obscurantismo cultural e ao analfabetismo funcional. 

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