Entre avanços e incertezas

Reação das montadoras é bom sinal, mas ainda há muita dúvida sobre as condições de 2021.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 22h29

O bom desempenho da indústria automobilística em janeiro, com produção e exportação maiores que as de um ano antes, é um dado especialmente animador. As montadoras movimentam muitos fornecedores de matérias-primas, peças e componentes e seu dinamismo é contagioso. Mas, apesar de vários sinais positivos, há dúvidas sobre a economia nos próximos meses. Incertezas quanto à sustentação da retomada e aos impactos da covid-19 foram citadas, segundo o Estado, pelo presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes. Cautela na contratação de pessoal é um dos efeitos das incertezas, mencionadas por dirigentes de vários setores, alimentadas pelo jogo político de Brasília e associadas à indefinição da política econômica.

Mas os dados imediatos do setor automobilístico trazem alívio, depois de um ano muito ruim. As montadoras fabricaram 199,71 mil unidades no mês passado, 4,2% mais que um ano antes. Esse avanço ganha importância quando se considera o recuo de 2020. A produção do ano passado, de 2,01 milhões de veículos montados, foi 31,6% menor que a de 2019. Também houve melhora notável no comércio exterior. A exportação de janeiro, de 25 mil unidades, foi 21,9% maior que a de 12 meses antes.

O crescimento do total exportado foi até surpreendente, porque os principais países importadores de carros, caminhões e ônibus brasileiros, incluída a Argentina, continuam em crise. No entanto, as vendas totais para o mercado argentino (+41,1%) e para o Mercosul (+24,6%) foram em janeiro maiores, em dólares, que as de igual mês de 2020. Em valor, a exportação total das montadoras, US$ 457,3 milhões no mês passado, foi 24,2% superior à de janeiro de 2020.

O vigor e a duração da retomada, no entanto, dependerão principalmente da reanimação do mercado interno. As vendas ao exterior, embora relevantes, têm participação ainda moderada na demanda final. O licenciamento é um bom indicador da situação do mercado doméstico.

Em janeiro foram licenciados 171,1 mil veículos nacionais e importados, número 11,5% menor que o de um ano antes e 29,8% inferior ao de dezembro. O mercado nacional apenas começa a se mover, embora as condições de crédito, muito importantes para vendas de veículos, continuem favoráveis.

Mas uma indústria muito vinculada ao mercado interno dificilmente crescerá por longo tempo se o conjunto ficar estagnado. O ministro da Economia, Paulo Guedes, já se declarou disposto a reativar em parte o auxílio emergencial, se algumas condições políticas forem garantidas. É difícil dizer se uma reativação parcial desse benefício bastará para prolongar a recuperação iniciada em maio de 2020.

Com muitos desempregados (14 milhões no trimestre findo em novembro), preços da comida ainda altos e orçamento apertado, a maior parte das famílias tem de ser cautelosa nos gastos. Em janeiro foram tirados da poupança, em termos líquidos, R$ 18,1 bilhões – diferença entre saques e depósitos. Esse foi um valor recorde para um único mês na série do Banco Central (BC), iniciada em 1995, e ocorreu depois de dez meses de continuada expansão das contas.

A redução dos saldos da poupança é normal em janeiro, por causa das despesas típicas de início do ano, mas desta vez o movimento saiu do padrão. A explicação parece óbvia e foi mencionada por vários analistas: o aperto de milhões de famílias no começo de 2021 vem sendo excepcional. Chegou o momento de usar o dinheiro guardado em 2020. Não só a classe média economizou. Também as famílias beneficiadas pelo auxílio emergencial puseram algum dinheiro de lado e agora precisam dessa reserva para comer.

O presidente da República, de olho na reeleição, defende medidas populares, também cobradas por sua base parlamentar, já contemplada com bilhões antes da escolha dos presidentes do Congresso. Como acomodar tudo isso no Orçamento, sem violar as normas fiscais, era questão aberta na sexta-feira. Sem resposta, ninguém pode dizer como funcionará a economia em 2021.

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