Epidemia de aumentos

Prévia da inflação mostra contaminação geral dos preços e governo sem rumo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 03h00

Com dinheiro curto, comida cara e forçado a economizar no gás e na luz, o brasileiro comum já enfrentou uma alta de preços de 5,81% no ano e de 9,30% em 12 meses, segundo a prévia da inflação de agosto. O aumento mensal, de 0,89%, foi o maior para agosto desde 2002, quando atingiu 1%. A atual epidemia inflacionária contaminou oito dos nove grandes grupos de bens e serviços pesquisados. Ficou bem mais difícil morar, comer, usar veículo próprio e distrair-se com rádio ou televisão, mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, mostra-se confortável e pouco preocupado. Os números são do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15), com preços coletados entre 14 de julho e 13 de agosto.

Uma inflação anual entre 7% e 8% está “dentro do jogo”, disse o ministro na segunda-feira, negando qualquer descontrole. A inflação está subindo em todo o mundo, argumentou, e deve chegar a uns 7% nos Estados Unidos. Não é bem assim. No Brasil o surto inflacionário é bem maior que em quase todo o mundo emergente e desenvolvido. Nos 12 meses até junho os preços ao consumidor subiram em média 4,6% no Grupo dos 20 (G-20), 2,2% na União Europeia e 4,1% no conjunto da Organização para  Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No mesmo período, o IPCA aumentou 8,35% no Brasil, enquanto o desemprego permaneceu mais que o dobro do observado nas economias de renda média e alta.

A inflação brasileira está fora do jogo, ao contrário da avaliação do ministro Paulo Guedes. Para começar, a última projeção do mercado, de 7,11% em 2021, supera de longe a meta (3,75%) e até o limite de tolerância (5,25%) fixados pelo Conselho Monetário Nacional. Em segundo lugar, a alta de preços estimada no mercado para o próximo ano, de 3,93%, está bem acima do centro da meta (3,50%). Se as previsões estiverem certas, os preços continuarão subindo rapidamente, enquanto o crescimento econômico será igual ou até inferior a 2% – abaixo do medíocre, portanto.

Além disso, o conjunto das projeções tem piorado e deve seguir piorando, se o presidente Jair Bolsonaro insistir em causar insegurança quanto aos gastos federais, à dívida pública e à sustentabilidade das finanças oficiais. Juros altos, câmbio instável e dólar caro continuarão complicando o cenário e dificultando a recuperação, ainda muito lenta, da economia brasileira.

É arriscado apostar, neste momento, numa inflação de 7,11% em 2021. Será preciso conter as atuais pressões para baixar a taxa acumulada e levá-la até aquele nível, já muito elevado. Apesar das oscilações, as taxas mensais têm permanecido muito altas e as variações acumuladas em 12 meses têm aumentado seguidamente.

Tendo superado 9%, a alta do IPCA-15 em 12 meses prenuncia um quadro muito parecido com o dos meses finais da presidente Dilma Rousseff. De novembro de 2015 a fevereiro de 2016, a inflação anual passou de 10%. O surto foi contido com uma forte alta de juros, suficiente para mudar rapidamente as expectativas e frear os preços. Além disso, o novo governo, embora destinado apenas a completar o mandato de uma presidente removida do posto, havia mostrado uma forte disposição de iniciar o conserto das contas públicas. As mudanças no Ministério da Fazenda e na direção do BC com certeza contribuíram para a mudança de expectativas.

Mas o combate à inflação, hoje, é especialmente complicado por vários fatores. Para começar, é preciso levar em conta a difusão da alta de preços. Os aumentos ocorreram, no último mês, em oito dos nove grandes grupos de bens e serviços. Não se resolve o problema cuidando deste ou daquele item. A crise hídrica, com seus efeitos no custo da eletricidade, é certamente uma questão muito importante, mas é uma entre muitas. A diretoria do BC ainda tem credibilidade, mas tem sido incapaz, em seu trabalho, de anular ou mesmo de atenuar os efeitos da ação presidencial, da desorientação da equipe econômica e do descrédito do ministro da Economia. Nenhum aperto monetário compensa um Executivo tão ruim chefiado por um presidente devastador.

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