Escola aberta só faz bem

Estudo segundo o qual a abertura das escolas não agravou a pandemia acabou com pretextos para mantê-las fechadas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 03h05

Um levantamento publicado na revista da Jama, a Associação Americana de Medicina, constatou que a abertura das escolas não contribuiu para agravar a pandemia. É mais uma evidência científica que pulveriza quaisquer pretextos para manter escolas fechadas. Apesar disso, vários governos subnacionais seguem adiando a reabertura.

Desde o começo da pandemia havia indícios de que as crianças eram menos vulneráveis, seja em relação à evolução de quadros graves, seja como fator de transmissão. Ainda assim, o excesso de cautela era defensável ante tantas incertezas.

Mas, segundo a OCDE, em nenhum outro país o fechamento foi tão longo quanto no Brasil. Os efeitos sociais foram particularmente cruéis, por afetar desproporcionalmente o ensino público. Os alunos pobres ficaram mais tempo sem aulas e tiveram menos acesso ao ensino remoto. Para muitos a merenda é a refeição mais nutritiva do dia. Para seus pais, é mais difícil adaptar a rotina. Estima-se um aumento de mais de 170% na evasão escolar.

Em nenhum segmento as restrições foram tantas e tão longas. Mesmo quando a imunização avançava, as taxas de mortalidade caíam e a experiência internacional comprovava a segurança do ensino presencial, gestores em todo o País mantinham o fechamento. E mantêm agora.

A situação ilustra o descaso com a educação no Brasil. O governo federal foi omisso. Mais de 80% dos municípios não aplicaram os recursos mínimos destinados obrigatoriamente à educação. A própria comunidade de professores manchou seu currículo: muitos promoveram greves e exigiram condições irrazoáveis de retorno, quando tudo já estava em funcionamento. Institutos de ensino superior, que deveriam ser os guardiões da ciência, seguem adiando as aulas presenciais. Estados como Amazonas, Rio Grande do Norte, Piauí, Paraíba e Roraima adiaram o retorno. O Amapá o programou apenas para março e o Acre, para abril.

O estudo publicado na revista da Jama comparou centenas de municípios brasileiros no ano passado. “A gente olhou para os municípios mais vulneráveis e as conclusões foram idênticas. Quando está todo mundo circulando normalmente, fechar as escolas não muda nada”, disse Guilherme Lichand, um dos autores.

A nova onda da Ômicron não altera essas conclusões. Ao contrário. A variante é menos virulenta e hoje mais de 70% da população está imunizada. Infelizmente, a vacinação infantil está defasada, em boa medida pela campanha de desinformação do Palácio do Planalto. Menos de um terço das crianças está imunizada, quando a estrutura do SUS permitiria mais de dois terços. Ainda assim, o fato de uma criança não estar vacinada não justifica impedir o seu acesso à escola.

O Brasil tem uma educação comparativamente ruim e extremamente desigual. A pandemia agravou essas mazelas, exigindo esforços redobrados para reverter a evasão escolar, implementar a digitalização e recuperar a defasagem de aprendizado. Escolas fechadas não melhorarão em nada o quadro sanitário no presente e prejudicarão em muito as oportunidades das crianças no futuro.

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