Esfolados e endividados

Dívidas assombram gente sem emprego, sem renda e oprimida pela inflação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2021 | 03h00

Com renda achatada, inflação em alta e desemprego elevado, o brasileiro batalha para liquidar ou renegociar dívidas acumuladas na pandemia. Sem o auxílio emergencial, suspenso no início do ano e só agora retomado, milhões de famílias mal conseguiram sobreviver no primeiro trimestre. Com faturamento reduzido pelo distanciamento social e pelo empobrecimento dos consumidores, muitos negócios foram fechados ou forçados, ninguém sabe por quanto tempo, à inadimplência. Em março houve 95 pedidos de falência, número 58,3% maior que o de um ano antes, segundo a Serasa Experian.

Crédito flexível e apoio aos clientes continuam na pauta das grandes instituições financeiras. Consultados pelo Estadão/Broadcast, os cinco maiores bancos informaram estar preparados para continuar renegociando com seus clientes – em casos pontuais ou por meio de programas de alívio já em execução. Entre outras facilidades, as políticas incluem aumento do prazo de carência para operações de giro e condições especiais para devedores de empréstimos pessoais. Segundo um desses bancos, 35% das empresas tomadoras de capital de giro aderiram à ampliação da carência.

A pandemia afetou duramente a saúde financeira de famílias e empresas, mas programas oficiais de ajuda atenuaram, até o fim do ano, os efeitos da crise. Em dezembro, 31,1% da renda familiar estava comprometida com dívidas bancárias. Entre março e dezembro de 2020, houve renegociação de dívidas no valor de R$ 971,5 bilhões. As parcelas suspensas totalizaram R$ 146,7 bilhões, segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Para facilitar a aplicação das medidas de alívio, houve dispensa temporária de novas provisões para o caso de perdas.

Essa e outras formas de auxílio facilitaram a travessia de 2020, mas parte dos problemas foi transferida, em condições muito difíceis, para 2021. Em dezembro, 3,24% das famílias e 1,52% das empresas estavam, segundo o Banco Central (BC), em situação de “pré-inadimplência”, com atrasos entre 15 e 90 dias. Em fevereiro, eram, respectivamente, 3,65% e 1,69%. Só os atrasos de mais de 90 dias são classificados como inadimplência pelo BC. Como os bancos promoveram renegociações, no ano passado, e concederam carência, o cenário apresentado oficialmente em fevereiro é menos preocupante, na aparência, do que as condições efetivas do mercado.

Pelo menos três fatores complicaram a vida financeira das famílias, e de seus credores, no começo deste ano. O primeiro, e mais evidente, foi a suspensão do auxílio emergencial, já reduzido nos quatro meses finais de 2020. A retomada parcial desse auxílio, a partir da semana passada, proporcionará um alívio muito limitado às famílias em pior situação.

O segundo fator é a persistência de níveis muito altos de desemprego, de subemprego e de informalidade. Os desempregados eram 14,3 milhões no trimestre de novembro a janeiro e a esse número ainda seria preciso somar a multidão dos desalentados e de outros milhões de subutilizados.

O terceiro fator foi a inflação. Os preços aumentaram 0,93% em março, com a taxa mais alta para o mês desde 2015, e a variação em 12 meses chegou a 6,10%, superando amplamente o limite de tolerância fixado para 2021 (5,25%). Desde o começo do ano o custo da alimentação tem subido menos que na segunda metade de 2020, mas essa variação menor tem ocorrido sobre uma base elevada.

Entre as causas dessa desaceleração, duas se destacam – a estabilidade maior do câmbio e “a redução na demanda por conta da suspensão do auxílio emergencial”, explicou o economista Pedro Kislanov, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O empobrecimento adicional, portanto, freou a demanda e, por conseguinte, a alta de preços da comida. A fome teve um efeito anti-inflacionário, mas limitado. Outros preços continuaram em alta – como os da gasolina, do etanol e do diesel. Pelo projeto de orçamento finalizado em agosto, os problemas deveriam desaparecer, ou diminuir muito, na virada do ano. Papai Noel decepcionou a equipe econômica.

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