Esperança como insumo industrial

Negócios continuam mal, dizem industriais, mas falta o governo dar atenção ao recado

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2021 | 03h00

O sinal de alarme da indústria continua soando, enquanto o governo, acuado politicamente e sem rumo claro para a economia, mal consegue cuidar da própria contabilidade. A confiança do empresário industrial caiu pelo quarto mês consecutivo, em abril, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Uma quarta queda é apontada também pela prévia da sondagem mensal da Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgada na quinta-feira passada. A sequência de quatro resultados negativos nos dois levantamentos talvez alerte a equipe econômica, se o ministro Paulo Guedes e seus auxiliares derem alguma atenção à economia real.

Duas avaliações – das condições presentes e das perspectivas – são combinadas, nas duas pesquisas, para formar o índice geral de confiança. Também aí aparece uma coincidência. A redução do índice resultou, nos dois casos, da avaliação negativa das condições presentes. Nenhuma das duas sondagens mostrou piora das expectativas em relação aos seis meses seguintes. Mas esse aparente otimismo perde um pouco do brilho quando examinado com alguma atenção.

Em primeiro lugar, essa expectativa de tempos melhores parece um tanto estranha, quando se deteriora por tanto tempo a avaliação das condições presentes. A esperança de recuperação pode preservar o ânimo do empresário. Isso é bom, mas o governo deveria proporcionar, com urgência, alguma sustentação real a essa disposição. Em segundo lugar, o entusiasmo em relação ao futuro fica menos impressionante quando se examinam detalhes das pesquisas.

Na sondagem da CNI, o índice de expectativas subiu de 57,2 pontos para 58,1, entre março e abril, mas depois de uma queda mensal de 5,4 pontos. Com a nova reação, o indicador ainda ficou, afinal, abaixo do patamar de 60 pontos mantido de agosto a fevereiro. O quadro parece compatível com o desempenho recente da indústria.

Na pesquisa da FGV, as expectativas se mantiveram estáveis, entre março e abril, em 97,1 pontos, isto é, no território ainda negativo (abaixo de 100). Além disso, esse indicador declinou no começo do ano, depois de atingir em dezembro 109,6 pontos, o nível mais alto desde novembro de 2019, segundo tabela incluída no relatório. Também nesse mês foi registrado o maior nível do indicador da situação atual (119,9 pontos).

Com o novo recuo, o índice de expectativas chegou a 100,9 pontos em fevereiro e ficou em 97,1 nos dois meses seguintes. Foi o nível mais baixo desde agosto (99,6), quarto mês da recuperação iniciada em maio. Em março e abril a atividade havia despencado, derrubada pelo choque inicial da pandemia, e o sinalizador de expectativas havia caído a 49,6 pontos. Esses números são da série com desconto dos efeitos sazonais.

Um aspecto muito interessante desse tipo de indicador é a diferença entre duas avaliações prospectivas, a da economia brasileira e a do próprio negócio. Essa diferença, muito frequente, apareceu de novo nos dados da CNI. Enquanto o índice de expectativas quanto à economia nacional passou de 52,2 pontos em março para 53,3 pontos em abril, o indicador relativo ao desempenho da empresa subiu de 59,6 pontos para 60,5. As duas variações foram parecidas, na contagem de pontos, mas a avaliação das perspectivas da empresa se manteve em níveis bem superiores. A divergência ocorre normalmente, denotando confiança maior na condução do próprio negócio do que no desempenho dos vários mercados.

Outro detalhe muito relevante aparece na sondagem da FGV. É o nível de utilização da capacidade instalada. Entre março e abril a utilização diminuiu de 78,3% para 75,6%, o nível mais baixo desde setembro do ano passado, quando as indústrias funcionaram com 78,2% da capacidade produtiva de suas máquinas, equipamentos e instalações. O nível mais baixo desde o início da pandemia, de 57,3%, havia sido observado em abril, no fundo do poço do ano passado. O nível mais alto foi o de janeiro, de 79,9%, e a partir daí a ociosidade aumentou. Máquinas paradas tornam dispensável a mão de obra. Esse é o aspecto mais dramático desse quadro.

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