Esperança em meio mandato

Pelos cálculos do Banco Central e do Ipea, este ano e o próximo, os dois primeiros do atual governo, serão lembrados entre os piores da história brasileira

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 03h00

Sobrará meio mandato ao presidente Jair Bolsonaro para exibir um país com alguma animação econômica, se os fatos confirmarem as projeções de dois órgãos federais – o Banco Central (BC) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – e do mercado financeiro. Por esses cálculos, este ano e o próximo, os dois primeiros do atual governo, serão lembrados entre os piores da história brasileira. Neste momento, até uma expansão de 1% em 2019 é uma raridade nos cenários prospectivos. O caso do BC é um claro exemplo, como confirma seu Relatório de Inflação, publicado trimestralmente. Numa aparente demonstração de otimismo, seus técnicos elevaram de 0,8% para 0,9% a estimativa de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019. Mas o impulso deve ser muito fraco. O avanço previsto para 2020, no mesmo exercício de projeção, é de apenas 1,8%.

É um número menor que aquele apontado no setor financeiro e nas consultorias: 2%. Mas há esperança de algo melhor. A produção poderá crescer 2,5% em 2021 e de novo em 2022, de acordo com as adivinhações do mercado.

São também sombrios, por enquanto, os cenários do Ipea. O PIB deve aumentar 0,8% neste ano e 2,1% em 2020 – um pouco mais, neste caso, do que estimam os especialistas do BC e do mercado. Para justificar a expectativa de maior dinamismo no próximo ano, os especialistas do Ipea citam a liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a perspectiva de mais alguma redução de juros.

A redução adicional da taxa básica, lembram os técnicos, foi indicada pelo BC depois do corte, na semana anterior, de 6% para 5,5% ao ano – um alívio permitido pelo quadro de inflação contida e atividade baixa. Se essa diminuição se refletir na ponta final das operações de financiamento, haverá maior estímulo ao consumo e maior facilidade para quem quiser investir na capacidade produtiva das empresas.

Ao cortar os juros, o BC obviamente pretendeu dar um incentivo adicional aos negócios. O relatório traduz em números, numa seção especial, o efeito esperado nas operações de financiamento. O quadro apresentado mostra um ganho sensível, no próximo ano, mas bem maior nas operações com pessoas físicas do que nos financiamentos a empresas.

Pelas novas contas, em 2019 o estoque total de crédito deve ser 5,7% maior que o de 2018. Será um crescimento menor que o indicado no relatório anterior, de 6,5%, porque agora se espera uma contração dos financiamentos a pessoas jurídicas. Em 2020, o saldo total das operações deverá crescer 8,1%, novamente puxado pelo crédito às pessoas físicas (+11,2%).

O estoque dos empréstimos a pessoas jurídicas aumentará 3,8%, depois de ter recuado 0,9% em 2019. O desempenho modesto do crédito a empresas, nos dois anos, estará em boa parte relacionado à baixa procura de recursos em fontes públicas, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Esses números são compatíveis com a expectativa de aumento ainda moderado – 2,6% em 2019 e 2,9% em 2020 – dos investimentos em capacidade produtiva. Em 2018, esse aumento foi de 4,1%. Não há como projetar, a partir daí, crescimento do PIB muito maior nos anos seguintes. Os 2,5% previstos no mercado são compatíveis com o potencial estimado atualmente para o País.

Detalhe sombrio nas projeções do BC é o desempenho estimado para a indústria. Este deveria ser o maior foco de dinamismo e de inovação num país emergente, mas os dados mostram algo muito diferente. O BC baixou de 0,2% para 0,1% a expansão esperada para o setor neste ano. Dois segmentos devem ter desempenho negativo: a indústria de transformação deve produzir 0,2% menos que em 2018; na extrativa, o recuo será de 1,6%, por causa do desastre de Brumadinho.

Em 2020, a indústria deve crescer 2,2%, num avanço medíocre depois de vários anos muito ruins. Mais que um país em crise, o Brasil é um raríssimo caso de emergente em processo de desindustrialização. Alguém, no governo, terá dado alguma atenção a esse fato?

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