Estado e governo

A manifesta predileção de Jair Bolsonaro por um dos candidatos à Presidência do Uruguai foi um vexame

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2019 | 03h00

O governo do Uruguai convocou o embaixador brasileiro em Montevidéu, Antônio Simões, para dar explicações sobre as declarações do presidente Jair Bolsonaro a respeito da eleição no país vizinho. O candidato governista Daniel Martínez, da Frente Ampla, e Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, disputarão o segundo turno da eleição presidencial no dia 24 deste mês. O presidente brasileiro declarou apoio ao oposicionista Lacalle Pou.

A convocação de um embaixador pelo governo do país onde serve é uma prática relativamente comum na diplomacia. O que particulariza este caso envolvendo Uruguai e Brasil é o fato de se tratar da primeira resposta oficial de uma nação estrangeira a uma prática recorrente de Jair Bolsonaro, qual seja, a de se imiscuir em assuntos que não lhe dizem respeito.

A manifesta predileção por um dos candidatos à presidência do Uruguai foi mais do que um erro de Jair Bolsonaro como chefe de Estado. Foi um vexame. Luis Lacalle Pou, o candidato apoiado, simplesmente recusou o apoio, indicando que a chancela do presidente do Brasil é mais tóxica do que benéfica à sua campanha. “Não me parece uma coisa boa que diferentes políticos, ainda mais um governante, opinem sobre o que pode acontecer em outro país.

Por sorte, o Uruguai não decide o que os brasileiros pensam. O Uruguai decide sobre as coisas que aqui acontecem e sobre o que precisam os uruguaios”, disse o candidato da centro-direita ao jornal local El Observador. As palavras de Lacalle Pou soaram como uma admoestação sem a qual o presidente Jair Bolsonaro poderia muito bem ter passado. Com modéstia, o presidente brasileiro poderia refletir sobre sua manifestação pública e repensar seu modo de proceder na condução da política externa.

O presidente Jair Bolsonaro já declarou apoio à reeleição do presidente norte-americano Donald Trump no ano que vem. Está fresca na memória a imagem patética de um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), vestindo um boné da campanha de Trump. São comportamentos temerários, em desalinho com o melhor interesse do Estado brasileiro. Hoje não é possível sequer afirmar que o presidente dos Estados Unidos concluirá seu mandato, tendo em vista que a Câmara dos Representantes formalizou recentemente a abertura de um processo de impeachment contra ele. Que dirá ser reeleito.

O mesmo aconteceu no curso da eleição presidencial na Argentina, nosso maior parceiro regional. O presidente brasileiro apoiou a reeleição de Mauricio Macri. No domingo passado, Macri perdeu para o peronista Alberto Fernández. A relação entre Bolsonaro e Fernández já começou estremecida, repleta de provocações de parte a parte. A quem serve esse bullying tolo entre dois chefes de Estado? Não aos interesses dos dois países, que continuarão caminhando juntos a despeito dos humores de seus chefes de Estado e de governo.

Por fim, vale lembrar que o presidente brasileiro também apoiou enfaticamente a recondução do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, e o país se vê às voltas com um impasse político para formação do novo governo que pode levá-lo à terceira eleição em um ano.

Quais os riscos para o Brasil caso um candidato do Partido Democrata vença a eleição nos Estados Unidos em 2020? O que acontecerá caso – como já está mais do que claro – um candidato não alinhado a Jair Bolsonaro seja o novo premiê de Israel? Como será a relação entre Brasil e Argentina após a posse de Alberto Fernández?

Todas essas dúvidas seriam facilmente respondidas caso Jair Bolsonaro compreendesse que uma de suas mais importantes funções como presidente da República é atuar como o mais distinto representante dos interesses do Estado brasileiro, e não fazendo a advocacia administrativa de suas predileções pessoais.

São escassas as esperanças de que o presidente, enfim, possa mudar sua percepção em relação ao cargo. Resta-nos torcer para que o qualificado corpo diplomático do País atue na contenção de danos.

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