Extremistas por natureza

Bolsonarismo deixaria de existir sem o culto à violência e o extremismo que o caracterizam

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 03h00

Aliados de Jair Bolsonaro preocupados com a reação do Judiciário contra o extremismo bolsonarista pretendem minimizar a importância dos radicais no movimento que sustenta o presidente. Como mostra recente reportagem do Estado, esses aliados agora querem fazer o País acreditar que os camisas pardas bolsonaristas não são representativos do “grupo do Bolsonaro”, que é como os supostos moderados se referem a si mesmos.

“Desde as Diretas Já sempre tem um maluco com uma placa que diz bobagem. Esse pessoal com bandeiras inadequadas não representa o pensamento do grupo que apoia Bolsonaro”, disse ao Estado Luís Felipe Belmonte, um dos dirigentes do Aliança Pelo Brasil, partido oficial do bolsonarismo. “Inadequado” é, segundo Belmonte, exigir o fechamento do Congresso e do Supremo. Para ele, tal demanda é uma “conversa estúpida e sem fundamento”. Outro líder bolsonarista, Newton Caccaos, declarou: “Não podemos ser confundidos com os mais radicais e intervencionistas”.

Não é difícil presumir que essa tentativa de mudar a imagem do bolsonarismo faça parte do esforço do presidente para aliviar as tensões com o Supremo Tribunal Federal e com o Congresso. Parece óbvio que o objetivo de Bolsonaro é indispor-se o menos possível com as instituições que podem abreviar seu mandato. Será, no entanto, uma tarefa dura, tanto para Bolsonaro quanto para seus devotos. O presidente construiu sua carreira política na base do radicalismo. Jamais fez concessões à democracia - muito pelo contrário. Nunca se desculpou por suas muitas declarações liberticidas e por seu comportamento irresponsável mesmo depois de vestir a faixa presidencial.

Dizer-se moderado não torna ninguém moderado. O bolsonarismo - bem como o líder que o inspira - é um movimento eminentemente extremista. Não é possível, de uma hora para outra, fingir que, antes de ser eleito, Bolsonaro não homenageou torturadores, não desejou o fuzilamento de opositores do regime militar e não defendeu explicitamente o fechamento do Congresso; tampouco é possível fingir que Bolsonaro, depois de eleito, não participou de manifestações escancaradamente golpistas, não ameaçou descumprir ordens judiciais, não defendeu armar a população para enfrentar governadores de Estado e não permitiu que ministros seus fizessem ameaças sediciosas caso o presidente continuasse a ser contrariado.

Assim, será necessário bem mais do que supostas boas intenções de supostos moderados bolsonaristas para que o País acredite, depois desse banho de radicalismo, que o presidente e seus sabujos vão se comportar como manda a democracia. Para começar, seria bom que o próprio Bolsonaro viesse a público para desautorizar explicitamente os extremistas que defendem o fechamento do Supremo e do Congresso. Um gesto como esse teria o condão de reduzir as muitas e compreensíveis dúvidas sobre as boas intenções do presidente e dos bolsonaristas que se dizem democráticos.

Para ser realmente crível, no entanto, o movimento bolsonarista teria de ser ainda mais radical em sua mutação: teria de se retratar publicamente das muitas agressões de Bolsonaro ao decoro, tanto no exercício de seu mandato parlamentar como no da Presidência. E teria de se retratar também de seu comportamento absolutamente irresponsável diante da pandemia de covid-19.

Não se tem notícia de que o presidente Bolsonaro ou qualquer de seus seguidores ditos “moderados” estejam se preparando para tal expiação. E isso não vai acontecer porque o bolsonarismo deixaria de existir sem o extremismo e o culto à violência que tão bem o caracterizam. Fiéis à sua natureza, os bolsonaristas - a começar pelo presidente - continuarão a ser nostálgicos dos tempos em que as instituições eram subordinadas ao poder militar, a oposição era esmagada e a narrativa era controlada por meio de censura, evitando o constrangimento da contradição. É esse extremismo, muito mais do que a boçalidade de um punhado de celerados que atiram fogos de artifício contra o Supremo, que ameaça de fato a democracia no País.

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