Falsas soluções de um governo acuado

Responsável pela disparada do dólar, que pressiona o preço dos combustíveis, governo fala em ‘colchão tributário’

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 03h05

A alta dos combustíveis, que assombra o cidadão comum por causa de seu forte impacto sobre a inflação, parece assustar ainda mais o presidente Jair Bolsonaro. O problema preocupa Bolsonaro pois a inflação, acompanhada de baixo crescimento e de desemprego alto, coloca em risco seu principal projeto político, o de manter-se no cargo por mais um mandato. Não se espere, porém, que, negando seu currículo político e administrativo, desta vez ele faça o que precisa ser feito. O presidente e seus principais responsáveis continuarão a transferir culpas a terceiros e a buscar algo com que possam iludir o público. 

A tentativa mais recente do governo de mostrar uma preocupação que nunca teve com a situação da população e da economia é a sugestão de criação de um “colchão tributário” – como o designou o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, em audiência no Senado – para conter a alta dos preços dos combustíveis pagos pelos consumidores. Outros membros do governo já falaram em “fundo de amortecimento” e “fundo de estabilização”.

A ideia é, na essência, a mesma: a criação, com recursos tributários, de um fundo que permita a compensação parcial do impacto de fatores externos e da alta do dólar no preço da gasolina, do diesel e outros derivados.

Não há grande novidade nisso, como não há na insistência com que Bolsonaro tenta culpar a Petrobras pelos sucessivos reajustes dos combustíveis. A medida admitida pelo governo já foi empregada para outros preços e tarifas, no Brasil e em outros países.

Consomem-se recursos do contribuinte – ou de outra fonte de dinheiro público – em fundos de administração geralmente pouco transparente e de resultados modestos, quando algum é alcançado. Se houver alguma redução no preço final do combustível, será depois da vírgula, isto é, nos centavos.

Não se poderia esperar muito mais de um governo que, quando chamado a decidir diante de emergências ou mesmo de problemas menos graves, mostrou incompetência, insensibilidade e irresponsabilidade.

Bolsonaro e seus auxiliares nada farão para conter a disparada do dólar, cuja cotação é impulsionada pela desconfiança generalizada com relação à maneira errática como seu governo vem agindo nos campos econômico e político. E o dólar sobe no momento em que o petróleo e seus derivados alcançam seus preços mais altos em muitos anos no mercado mundial.

Na audiência no Senado, o ministro Bento Albuquerque citou alguns números que mostram a mudança no mercado mundial de petróleo. Em janeiro do ano passado, segundo ele, o barril estava a US$ 66; agora está quase 30% mais caro, cotado a US$ 84. Já o dólar, segundo dados do ministro, teve alta de quase 39% nesse período. Por ser-lhe conveniente, Albuquerque não disse que o dólar ficou muito mais caro em real do que em outras moedas – e essa discrepância tem causa conhecida, que são os desmandos do governo Bolsonaro. A combinação de fatores externos e desgoverno tem custo alto. Só em 2021, a gasolina já subiu mais de 40% para o consumidor brasileiro. 

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