Falta vaga, cria-se uma empresa

A multiplicação de microempresas reflete principalmente a escassez de oportunidades no mercado de trabalho

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2022 | 03h00

Pelo número de empresas criadas no ano passado, mais de 4 milhões, a economia brasileira parece estar bombando. Mas é bom dar atenção a outros números antes de lançar o primeiro rojão. 

Doze milhões de pessoas estavam desempregadas no trimestre final de 2021. Em milhões de casos, desempregado significa “sem condições de pagar as contas do dia a dia e de cuidar das crianças”. O mesmo número, correspondente a 11,2% da força de trabalho, procurou uma vaga no trimestre móvel terminado em janeiro. Quem ainda manteve ou conseguiu alguma ocupação ganhou em média R$ 2.447. Esse valor foi 10,7% menor que o rendimento médio habitual de um ano antes, descontada a inflação. Se havia prosperidade, onde estava escondida?

Convém levar em conta esses dados antes de festejar o aumento dos trabalhadores por conta própria. Esse contingente cresceu 10,3% em um ano e chegou a 25,6 milhões de pessoas no trimestre novembro-janeiro. A média anual do ano passado, de 24,9 milhões, foi 11,1% superior à de 2020. Estaria ocorrendo um notável surto de empreendedorismo, estimulado pela vitoriosa estratégia da gestão Bolsonaro?

A resposta é negativa. Criar uma empresa – microempresa, na maioria dos casos – pode ser simplesmente um meio de tentar sobreviver, quando o emprego é muito escasso. Os trabalhadores informais, 38,9 milhões, corresponderam, no último levantamento, a 40,7% dos ocupados. Esse número inclui 12,4 milhões de empregados sem carteira assinada no setor privado.

O número de informais – assalariados e ocupados por conta própria – também é parte de um quadro muito ruim do mercado de trabalho e da atividade econômica. De cada 10 empresas criadas em 2021, quase 8 foram de microempreendedores individuais, informou o Estadão.

Tanto os números oficiais quanto os da Serasa Experian mostram as dimensões modestas da maior parte dos novos empreendimentos e deixam clara, também, a relação entre desemprego e novos microempresários. “Por esses números, parece que o Brasil virou um celeiro de empreendedores”, comentou o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, antes de falar sobre a realidade sombria por trás da criação de microempresas.

Desde 2016, segundo ano da recessão deixada pela presidente Dilma Rousseff, o desemprego tem superado 10% da força de trabalho. Mas o contingente de pessoas em graves dificuldades é muito maior, porque inclui também os trabalhadores subocupados, os desalentados e aqueles fora do mercado, embora pudessem estar em busca de trabalho. O número de subutilizados diminuiu em um ano, mas continuou muito alto – 27,8 milhões, ou 23,9% da força de trabalho.

O crescimento de 4,6% em 2021 levou a economia de volta, com pequena folga, ao patamar pré-pandemia, mas foi insuficiente para inaugurar um período de maior dinamismo. Retomado o nível anterior à covid-19, a atividade continua muito lenta. O Ministério da Economia projeta para 2022 expansão de 1,5%. O Banco Central estima 1%. O mercado, 0,5%. Nada muito promissor, enfim, em relação ao emprego.

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