Fardo pesado

Custa crer que Marcelo Álvaro Antônio ainda esteja à frente do Turismo, a despeito do fardo que representa para o governo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2019 | 03h00

Custa crer que Marcelo Álvaro Antônio ainda esteja à frente do Ministério do Turismo, a despeito do fardo político e moral que representa para o governo do presidente Jair Bolsonaro. Sobre ele recaem graves suspeitas de desvio de recursos do Fundo Partidário por meio de candidaturas “laranjas” do PSL em Minas Gerais. Marcelo Antônio presidiu a legenda no Estado.

Há um mês, várias mulheres têm acusado o ministro de montar um esquema fraudulento para se aproveitar da cota de 30% de candidaturas femininas, prevista na lei eleitoral, a fim de desviar recursos eleitorais e beneficiar empresas ligadas a seu gabinete na Câmara dos Deputados, caso revelado pelo jornal Folha de S.Paulo.

Quatro candidatas do PSL receberam cerca de R$ 279 mil do diretório nacional do partido do ministro Marcelo Antônio e do presidente Jair Bolsonaro para suas campanhas. O quarteto ficou entre as 20 candidaturas que mais receberam recursos públicos para suas campanhas no País. Não obstante, tiveram uma votação desprezível, menos de mil votos cada uma, sugerindo a possibilidade de que suas candidaturas não passaram de um embuste para desviar recursos do Fundo Partidário.

Segundo os depoimentos das mulheres, uma parte do dinheiro recebido por elas para custear suas campanhas de fachada era devolvida ao partido. Então presidente da legenda e reeleito deputado federal com a maior votação em Minas Gerais, Marcelo Álvaro Antônio teria usado esses recursos para contratar serviços de quatro empresas de assessores e parentes. Por meio do Twitter, o ministro negou as acusações. “Hoje, sou o alvo de uma matéria que deturpa os fatos e traz denúncias vazias sobre nossa campanha em Minas Gerais. A distribuição do Fundo Partidário do PSL cumpriu rigorosamente o que determina a lei”, escreveu.

Zuleide Oliveira, uma das candidatas a deputada estadual pelo PSL de Minas Gerais na eleição passada, veio a público esta semana para acusar o ministro do Turismo de tê-la “convidado” para ser uma das “laranjas” do partido. “Eu acho que eles (a direção do PSL mineiro) me usaram”, disse. O ministro Marcelo Antônio negou a acusação e afirmou que Zuleide “mente descaradamente”.

Não se pode dizer, contudo, que subitamente a ex-candidata esteja tentando se aproveitar da notoriedade do agora ministro do Turismo ou tampouco faça parte de um ardil para “desestabilizar o governo de Jair Bolsonaro”. Em setembro do ano passado, Zuleide, a primeira a envolver diretamente Marcelo Antônio no esquema, protocolou uma denúncia ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), mas o caso parece não ter recebido maior atenção.

Após cerimônia de entrega de credenciais de embaixadores estrangeiros no Palácio do Planalto, Bolsonaro foi questionado sobre o caso envolvendo um de seus ministros. Aos jornalistas, o presidente da República pediu que “deixassem as investigações continuarem”, antes de cobrar dele uma declaração ou ação sobre o caso.

É evidente que a eventual responsabilidade penal, eleitoral ou administrativa do ministro do Turismo no suposto esquema fraudulento em Minas Gerais haverá de ser confirmada ou não após o devido processo legal. Algo bastante distinto é a condição política para a permanência de Marcelo Antônio na Esplanada dos Ministérios. Não custa lembrar que o mesmo caso das candidaturas “laranjas” já foi o estopim para a demissão de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência. Bebianno foi um dos mais próximos aliados de Jair Bolsonaro, um dos articuladores de sua filiação ao PSL e dos mais ativos coordenadores de sua campanha à Presidência.

Bolsonaro já tem problemas políticos suficientes, derivados em sua maioria de sua incapacidade de articular uma base de apoio com um mínimo de solidez no Congresso. Tudo o que ele não precisa neste momento é de desgastes desnecessários, atraindo para o governo a suspeita de que o discurso moralizador que marcou sua campanha eleitoral, ante a formidável safra de laranjas de seu partido, não valia nada.

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