Fed, juros e o jogo de Trump

Uma nova queda de juros nos EUA será boa para o Brasil. Com dinheiro acessível, ficará mais fácil atravessar com menor turbulência as próximas etapas do ajuste

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2019 | 03h00

Será boa para o Brasil uma nova queda de juros nos Estados Unidos, uma evolução dada quase como certa nos mercados financeiros depois do discurso do presidente do banco central americano, Jerome Powell, ontem. Com mais dinheiro acessível no mercado internacional, ficará mais fácil financiar as contas públicas, juntar reservas cambiais e atravessar com menor turbulência as próximas etapas do ajuste brasileiro.

A expectativa de novo corte dos juros foi reforçada quando o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se referiu a “riscos significativos” associados ao comércio internacional e à economia global, já em desaceleração. O presidente Donald Trump, no entanto, cobra mais do Fed e ainda perguntou, também ontem, se o maior inimigo do país seria o presidente chinês, Xi Jinping, ou Jerome Powell.

Também se espera um afrouxamento da política do Banco Central Europeu (BCE), já muito suave. Além de criar melhores condições de financiamento, a ação das duas mais importantes autoridades monetárias do mundo capitalista poderá atenuar, nos próximos meses, o risco de uma queda maior da atividade econômica.

Os juros básicos poderão cair 0,25 ponto porcentual em setembro, nos Estados Unidos, recuando da faixa de 2% a 2,25% para o intervalo de 1,75% a 2%, se as previsões mais comuns estiverem certas.

A economia americana tem crescido e o desemprego é baixo, mas há sinais de menor atividade industrial e de redução do investimento produtivo. A inflação, ainda muito baixa, aproxima-se da meta de 2% ao ano. Embora o quadro geral ainda seja satisfatório, o cenário poderá piorar se houver uma nova intensificação do conflito comercial entre China e Estados Unidos.

O presidente Donald Trump prometeu novas medidas contra importações de produtos chineses, como resposta à anunciada imposição de maiores tarifas a US$ 75 bilhões de bens americanos por Pequim. As tensões entre as duas maiores economias dominaram os mercados no último pregão da semana. No Brasil, a bolsa de valores caiu, acompanhando o movimento internacional, e o dólar subiu, como em todo o mundo, atingindo R$ 4,13 no meio da tarde.

Jerome Powell vive uma situação particularmente difícil, pressionado e criticado publicamente, e com palavras cada vez mais duras, pelo presidente americano, Donald Trump, responsável por sua indicação para o Fed e que se mostra decepcionado e até indignado, como se o presidente do Fed lhe devesse fidelidade, talvez gratidão e certamente obediência.

Dirigentes do banco central dos Estados Unidos, no entanto, têm por lei autonomia operacional e mandato maior que o do presidente da República. O presidente da instituição só tem de prestar contas, periódica e publicamente, ao Congresso.

Em discurso no encontro anual de bancos centrais em Jackson Hole, Powell lembrou enfaticamente a função legal do Fed: favorecer a obtenção do maior nível de emprego compatível com a estabilidade monetária, vinculada a uma política de metas para os preços. A função vem sendo cumprida e o duplo objetivo tem de continuar guiando a política.

Não é papel do Fed, observou Powell, cuidar de comércio, atribuição do Congresso e do Executivo. Foi uma resposta indireta a Trump. Este vem acusando o governo chinês de depreciar o yuan para tornar os produtos da China mais baratos. Juros menores – este é um argumento implícito – poderiam facilitar a depreciação do dólar e ajudar as empresas americanas. Powell acenou, no entanto, com a possibilidade de ação mais firme do Fed se o emprego e a atividade ficarem comprometidos.

A autonomia, um dos ativos mais preciosos do Fed e de outros bancos centrais, é um importante fator de credibilidade. O Fed será severamente prejudicado se houver sinais de rendição a Trump.

No Brasil, a autonomia operacional do Banco Central ainda está para ser votada. Se o presidente Jair Bolsonaro de novo se inspirar em Trump, seu guru, poderá atrapalhar seriamente a imagem e o trabalho da autoridade monetária. O Brasil já pagou muito caro por intervenções desse tipo.

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