Fiasco

Nem Donald Trump nem Kim Jong-un manifestaram essa predisposição em Hanói

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2019 | 03h00

A primeira reunião entre o presidente americano, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, realizada em junho de 2018 em Cingapura, valia por si só. O simples fato de haver um encontro entre os dois - após uma série de ofensas e ameaças mútuas - já era o bastante para prenunciar um futuro melhor para a região da Península Coreana. Não era esperado daquele encontro histórico muito mais do que o protocolar aperto de mãos e a manifestação de boa vontade para estreitar a relação entre seus países, há muito marcada por hostilidades de parte a parte.

Ao final da cúpula, Donald Trump e Kim Jong-un assinaram uma declaração conjunta manifestando “profunda e sincera disposição para reconstruir as relações entre seus países de modo a levar à construção de um regime de paz duradouro e robusto na Península Coreana”. “O acordo ficará registrado como um evento histórico que ajudou a derrubar o último legado que restava da guerra fria”, disse então Moon Jae-in, presidente sul-coreano, com incontido entusiasmo.

Esperava-se, pois, que a “profunda e sincera” disposição de Trump e Kim para apaziguar a relação entre seus países e, consequentemente, pacificar a região resultasse em ações concretas e prazos definidos na segunda cúpula entre os dois, realizada nos dias 26 e 27 de fevereiro, em Hanói, no Vietnã. Não foi o que ocorreu. Nem sequer a agenda oficial foi cumprida: os dois líderes deixaram o Vietnã antes do prazo.

Não apenas a segunda cúpula entre o presidente americano e o líder norte-coreano foi um fiasco completo, sem resultar em qualquer avanço em relação ao primeiro encontro, como serviu para minar a esperança de um acordo de paz bem-sucedido entre os dois países diante da intransigência claramente demonstrada por ambos. Kim Jong-un aceita desmantelar o centro de pesquisa de Yongbyon e interromper os testes de mísseis nucleares, desde que pelo menos algumas das severas sanções econômicas impostas à Coreia do Norte sejam suspensas imediatamente. Donald Trump defende o exato oposto, ou seja, as sanções só serão suspensas quando e se o regime de Pyongyang apresentar evidências incontestáveis da chamada “desnuclearização” do país asiático.

“Basicamente, eles queriam que as sanções fossem levantadas em sua totalidade, e nós não poderíamos fazer isso”, disse Trump ao final de um encontro privado com Kim Jong-un. Mas o chanceler norte-coreano, Ri Yong-ho, desmentiu Trump, dizendo que seu país exigiu uma suspensão apenas parcial. Ignorando esse ruído, o presidente americano disse que “existe uma cordialidade que espero que continue”. De nada vale a tal cordialidade, no entanto, se o sentimento não se traduz em ações à mesa de negociação. Ora, não é de natureza social e recreativa a relação que eles têm. 

A premissa de uma negociação bem-sucedida, seja qual for sua complexidade, é a predisposição dos negociadores para ceder em alguns pontos em prol de um resultado maior que seja benéfico para todos. Se ao fim de uma negociação uma das partes sai insatisfeita, outro nome há de ser dado às tratativas, pois negociação não houve.

Nem Donald Trump nem Kim Jong-un manifestaram essa predisposição em Hanói. O que parece cada vez mais claro é que, no fundo, um e outro parecem querer mais subjugar a contraparte do que, de fato, chegar a um acordo. Da forma como vêm se comportando nas negociações, Donald Trump pretende ser o presidente que “arrancou” a paz com a Coreia do Norte há muito tentada por seus antecessores e, por seu turno, Kim Jong-un parece querer figurar como o líder norte-coreano que derrotou o grande e poderoso inimigo histórico ao impor as suas idiossincrasias. É evidente que nada de bom há de sair de negociações assim além de pitorescas fotografias.

Em Hanói, não houve uma declaração conjunta e tampouco a indicação de nova cúpula. “Veremos se acontece”, disse Donald Trump. Segue, assim, a situação de incerteza na Península Coreana até que Donald Trump e Kim Jong-un estejam dispostos a negociar como dois adultos responsáveis.

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