Fiasco anunciado

Melhor resultado que o País pode levar à COP-27 é a eleição de um presidente comprometido com a agenda ambiental

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2022 | 03h00

O Brasil corre o risco de passar vergonha na 27.ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP-27), a ser realizada no Egito, em novembro próximo. É muito improvável que o País tenha resultados concretos a apresentar em relação aos compromissos assumidos na edição anterior da cimeira, realizada na Escócia, há seis meses. Em sua maioria, as metas de redução do desmatamento ilegal e das emissões de gases do efeito estufa, com as quais a delegação brasileira se comprometeu oficialmente, não saíram do papel.

Este é o retrato de um governo liderado por um negacionista dos fatos e da ciência, alguém que, mesmo antes de assumir a Presidência da República, sempre fez pouco-caso da agenda de proteção ambiental. Na visão estreita do presidente Jair Bolsonaro, a defesa do meio ambiente – um imperativo constitucional, é sempre bom lembrar – é associada a “esquerdistas”, organizações não governamentais “oportunistas” e agentes econômicos estrangeiros interessados em se apropriar dos ricos recursos naturais do Brasil.

Decerto sob o manto da proteção ambiental se abrigam muitos interesseiros e criminosos, como garimpeiros ilegais, grileiros e traficantes de drogas, madeira e animais. A obrigação de um governo sério e responsável, contudo, é justamente apoiar as ações de combate aos crimes ambientais e fomentar a participação de organizações da sociedade civil que, com muita seriedade, atuam em defesa do meio ambiente, do bem-estar dos povos indígenas e na contenção das mudanças climáticas. Tudo o que o atual presidente jamais fez e jamais fará.

Bolsonaro nem sequer se esforça para fingir que mobiliza seu governo para defender o que é correto e aproximar o Brasil do mundo civilizado. Basta dizer que instituiu recentemente uma “câmara consultiva temática”, sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente, para “qualificar os dados de desmatamento e incêndios a fim de diferenciar crimes ambientais de outras atividades”. Uma câmara com esse objetivo nem deveria existir. Há anos, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já produz dados altamente qualificados, tornando-se uma referência internacional no monitoramento do desmatamento ilegal nos biomas da Amazônia e do Cerrado. Bolsonaro não só segue com sua deliberada política de desqualificação do Inpe, como criou a tal “câmara temática” sem contemplar a presença de técnicos do órgão. Ora, não pode ser séria uma ação que pretende combater desmatamentos ilegais e não conte com os cientistas do Inpe.

O Brasil perdeu muito da relevância que já teve em questões regionais e globais. Há algum tempo, a seara ambiental é a única na qual o País ainda figura como um interlocutor indispensável. Mas essa relevância, ou soft power, tem sido dilapidada por Jair Bolsonaro e sua passividade, para dizer o mínimo, diante da destruição de nossas florestas, rios e biodiversidade. A esperança que resta é que na COP-27, em novembro, o Brasil tenha um novo presidente recém-eleito que esteja comprometido com a defesa do meio ambiente.

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