Fraternidade e política

O papa Francisco lembra que problemas globais exigem ações globais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2020 | 03h00

No dia 3 de outubro, o papa Francisco publicou sua terceira encíclica, a Fratelli Tutti. “Entrego esta encíclica social como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras”, diz o pontífice no início do texto. Seu objetivo, pois, é estabelecer um “diálogo com todas as pessoas de boa vontade”.

Já no primeiro capítulo o papa Francisco faz um alerta. “A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrônicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos”, diz. O pontífice relata o que ele vê como os principais problemas dos dias de hoje: a manipulação e a deformação de conceitos como democracia, liberdade ou justiça; a perda do sentido social e da consciência histórica; o egoísmo e o desinteresse pelo bem comum; a prevalência de uma lógica de mercado baseada apenas no lucro e na cultura do descarte; o desemprego, o racismo e a pobreza; a disparidade de direitos e suas graves violações, como a escravidão, a agressão sexual e o tráfico de órgãos. Ante esse cenário, o pontífice propõe redescobrir a dignidade de cada ser humano e a dimensão de fraternidade que deve existir entre todos.

Em suas reflexões, o papa Francisco lembra que problemas globais exigem ações globais. No entanto, o caminho da cooperação enfrenta resistências. Diante de questões complexas e desafiadoras, “reaparece a tentação de fazer uma cultura dos muros, de erguer muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um muro (...) acabará escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes”, adverte.

O papa Francisco observa que a pandemia de covid-19 despertou “a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos”. Ao mesmo tempo, lembra a facilidade com que as lições da história são esquecidas. Uma vez controlada a pandemia, há a tentação de “cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta”, diz o pontífice. “Oxalá não seja mais um grave episódio da história cuja lição não fomos capazes de aprender. Oxalá não nos esqueçamos dos idosos que morreram por falta de respiradores, em parte como resultado de sistemas de saúde que foram sendo desmantelados ano após ano. Oxalá não seja inútil tanto sofrimento, mas tenhamos dado um salto para uma nova forma de viver e descubramos, enfim, que precisamos, e somos devedores, uns dos outros.”

Ao falar da responsabilidade social dos governos, o papa Francisco lembrou que “ajudar os pobres com o dinheiro deve sempre ser um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho. (...) Não há pobreza pior do que aquela que priva do trabalho e da dignidade do trabalho”.

Longe de pregar um paternalismo estatal, a encíclica papal destaca precisamente a importância de uma sociedade pujante. “A tarefa educativa, o desenvolvimento de hábitos solidários, a capacidade de pensar a vida humana de forma mais integral, a profundidade espiritual são realidades necessárias para dar qualidade às relações humanas, de tal modo que seja a própria sociedade a reagir face às próprias injustiças, às aberrações, aos abusos dos poderes econômicos, tecnológicos, políticos e midiáticos”, diz Francisco.

Ao propor uma ordem social mais fraterna e solidária, o papa Francisco faz um convite à revalorização da política, que é “uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum”. Rejeita, no entanto, o uso da religião para fins político-eleitorais, lembrando que, mais do que palavras, o que importa são ações efetivas. “O paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.” São reflexões pertinentes para o mundo inteiro, também para o Brasil.

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