Frustração, o maior risco

A advertência foi formulada pelo presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, quando apresentou o último Relatório de Inflação de 2018

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2019 | 03h00

Mais uma boa notícia sobre a inflação reforça as previsões otimistas sobre os primeiros tempos do novo governo. Calmaria nos preços pagos pelas famílias permitirá ao presidente cuidar de outros problemas urgentes e complicados. A última boa-nova foi o recuo do IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15), usado como prévia da inflação oficial. Apurado entre os dias 13 de novembro e 12 de dezembro, esse indicador recuou 0,16% em relação ao período imediatamente anterior. Foi o menor resultado mensal desde julho de 2017 e o mais favorável para um mês de dezembro desde o começo do Plano Real, em 1994. A alta acumulada no ano ficou em 3,86%. Os números finais do IPCA, a referência oficial, serão divulgados nos próximos dias. Se o acumulado for maior que o da prévia, ainda se manterá muito provavelmente abaixo da meta de 4,5% válida para 2018. Mas nenhuma boa notícia, nesta passagem de ano, torna dispensáveis muitos cuidados na administração das expectativas em 2019.

A advertência foi formulada pelo presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, quando apresentou o último Relatório de Inflação de 2018. Publicado a cada trimestre, esse documento contém uma avaliação do quadro econômico nacional e internacional e de suas perspectivas, projeções próprias e do mercado e um balanço de riscos. Se as projeções básicas se confirmarem, o novo governo poderá trabalhar por alguns meses com a taxa básica de juros de 6,50%, mantida na última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. A próxima reunião deve ocorrer no começo de fevereiro e pelo menos até lá devem valer esses juros.

As projeções do BC e do mercado apontam inflação próxima da meta em 2019 e nos dois anos seguintes. Há riscos externos e internos. Os externos são associados à alta de juros americanos. O último aumento empurrou a taxa para intervalo de 2,25% a 2,5%. Pelo menos mais dois aumentos são previstos para 2019. Ainda do lado externo há o perigo representado pelas tensões comerciais e pela escalada protecionista. Mas os perigos mais importantes, segundo os membros do Copom, são internos. O mais preocupante, avaliam, é o risco de frustração em relação à agenda de ajustes e reformas indispensáveis ao País.

Esse risco é hoje menor do que há alguns meses, comentou o presidente do BC. O futuro governo, acrescentou, tem emitido sinais positivos, indicando forte disposição de avançar nas políticas necessárias.

Isso tem sustentado a confiança de empresários, consumidores e investidores. Enquanto começava a circular o Relatório de Inflação, a Fundação Getúlio Vargas informava um aumento no Índice de Confiança da Indústria e uma nova baixa da inflação esperada pelos consumidores para os 12 meses seguintes. Mas as boas expectativas têm prazo de validade. Os sinais do governo são positivos e o risco de frustração diminuiu, mas ainda é elevado, insistiu Goldfajn.

Frustração de expectativas pode prejudicar o ambiente de negócios, afetar preços de ativos e realimentar a inflação, tornando necessário, talvez, antecipar a nova alta de juros. A advertência do presidente do BC e de seus companheiros do Copom nem chega a explorar detalhadamente as consequências dessa frustração. Mas é fácil avançar um pouco mais nesse trabalho.

O ano começará com juros básicos de 6,50%. Ninguém sabe por quanto tempo essa taxa será mantida, mas as projeções indicam juros de 8% no fim do ano, como efeito de um crescimento econômico mais intenso, acompanhado de pressões inflacionárias mais fortes que as deste ano. Se uma frustração derrubar a confiança na política econômica, os preços poderão ser afetados mais cedo e o Copom poderá ser levado a adiantar a alta de juros.

Combinados esses fatores, o governo poderá correr o risco de terminar seu primeiro ano com crescimento econômico inferior aos 2,4% indicados no Relatório e inflação superior às atuais projeções, todas abaixo da meta. Caberá ao governo manter e usar o legado de inflação moderada e juros baixos.

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