Galeão, mais uma ressaca petista

Leiloado num momento em que o governo petista vendia ufanismo, o aeroporto do Rio é devolvido à União em razão das sucessivas crises desde a recessão de 2014-2016

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2022 | 03h00

A devolução para a União da concessão do aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, simboliza o fim de mais uma ilusão megalomaníaca que os governos lulopetistas tentaram vender à população. A privatização das operações dos principais aeroportos brasileiros é parte de uma história petista que envolve ações internacionais de grande repercussão, como a realização da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e a Olimpíada de 2016, discursos ufanistas sobre a transformação do País no maior produtor de petróleo do mundo graças ao pré-sal, trem-bala, criação de grandes empresas nacionais capazes de competir em escala universal e promessa de felicidade geral e eterna para a população. Um de seus resultados é a grave crise econômica que se estendeu de 2014 a 2016 e ainda tolhe a capacidade de crescimento do País, adicionalmente prejudicada pelos desmandos do atual governo. O fracasso da Oi, que deveria ser a supertele nacional, mas há pouco teve de vender sua principal operação, é outra consequência da irresponsabilidade lulopetista. A devolução do Aeroporto Internacional Tom Jobim, nome oficial do Galeão, soma-se a esse conjunto.

O governo da então presidente Dilma Rousseff tentou transformar o leilão do Galeão, em 2013, na demonstração, para o público interno e externo, de que sua administração estava preparando adequadamente o Brasil para receber dois dos principais eventos esportivos mundiais, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. O resultado dos leilões em que o Galeão e o aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, tiveram sua gestão e operação transferidas para grupos privados foi então comemorado pela presidente Dilma Rousseff como fruto do “enorme interesse” dos investidores internacionais no Brasil e uma resposta aos pessimistas, que teriam tido na ocasião “um dia de amargura”. A devolução da concessão é, essa sim, mais uma amargura que o petismo lega ao País.

O nome do grupo vencedor era, por si só, sugestivo e retrato da euforia daquele momento: Consórcio Aeroportos do Futuro. Os números e cifras eram, de sua parte, surpreendentes. A oferta vencedora, de R$ 19,018 bilhões, era quase 300% maior do que o valor mínimo fixado no edital, de R$ 4,828 bilhões. A presença, no grupo, da operadora do aeroporto de Cingapura, à época considerado um dos melhores do mundo, representava a garantia de que os serviços seriam de alta qualidade.

Nem tudo, porém, se mostrou tão sólido e brilhante. A participação majoritária, no grupo vencedor do leilão, de uma empresa diretamente envolvida em casos de corrupção que começariam a ser desvendados no ano seguinte pela Operação Lava Jato – o Grupo Odebrecht – se transformaria numa dificuldade, que culminaria com sua saída das operações.

Desequilíbrios financeiros decorrentes da brutal queda da movimentação de passageiros por causa da pandemia de covid-19 e do mau desempenho da economia brasileira desde o início da concessão, além de outras exigências contratuais, foram invocados pela operadora privada – denominada RIOGaleão, controlada pela Changi, que opera o aeroporto de Cingapura – para desistir da concessão. 

Os números indicam que o aeroporto do Galeão vinha tendo mais dificuldades do que o de Santos-Dumont, também no Rio de Janeiro, para recuperar a movimentação que havia sido perdida na pandemia. O plano do governo de leiloar ainda em 2022 o aeroporto de Santos-Dumont gerava dúvidas sobre a recuperação do Galeão, visto que poderia resultar em aumento na movimentação de passageiros no primeiro, com prejuízo para o segundo. Autoridades locais vinham tentando equacionar o problema e assegurar a rentabilidade e a operacionalidade do aeroporto do Galeão.

Com a devolução da concessão pela Changi, o governo federal decidiu realizar um leilão com os dois aeroportos cariocas, em 2023. Seja qual for o modelo para contornar o problema, contudo, o caso do Galeão é, do começo ao fim, exemplar dos delírios de grandeza que o lulopetismo continua a vender aos eleitores incautos e de memória curta.

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