Ganhador certo, o Tesouro

Com a taxa básica reduzida de 6,50% para 6%, o governo terá um custo menor para rolar a enorme dívida pública

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2019 | 03h00

Se o governo esperava criar algum otimismo com as medidas de estímulo econômico recém-anunciadas, terá de esperar mais um pouco ou de tentar novamente. Só um grande beneficiário, o Tesouro, foi claramente identificado até agora, graças ao corte de juros determinado pelo Banco Central (BC). Com a taxa básica reduzida de 6,50% para 6%, o governo terá um custo menor para rolar a enorme dívida pública. Quanto aos trabalhadores e empresas, principalmente as pequenas e médias, deverão continuar com muita dificuldade pelo menos em 2019 e 2020, pelas avaliações do mercado. A economia, segundo as apostas mais frequentes, continuará em marcha lenta ainda por um bom tempo. Neste ano o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá apenas 0,82%, segundo a mediana das projeções coletadas na pesquisa Focus divulgada ontem pelo BC. Esse número é o mesmo de quatro semanas antes. Mas o cenário do próximo ano piorou, com as estimativas, também expressas pela mediana, caindo de 2,20% para 2,10%.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou em 23 de julho as primeiras medidas de estímulo - liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do PIS-Pasep. A partir de setembro as famílias terão acesso ao dinheiro. Deverão usá-lo principalmente para pagar dívidas e para algum consumo adicional. Com isso, e com regras novas de acesso ao FGTS a partir de março, o PIB poderá crescer nos próximos 12 meses 0,35 ponto porcentual a mais do que aumentaria sem os estímulos agora instituídos. Uma consultoria chegou a um resultado melhor, 0,55 ponto de crescimento adicional.

Os economistas do setor financeiro e das grandes consultorias, contatados semanalmente pelo BC, mantiveram as projeções de crescimento do PIB e até rebaixaram as estimativas de expansão da indústria. Este detalhe é especialmente significativo, porque o avanço da produção industrial seria um dos principais benefícios de uma reanimação do consumo. A mediana das projeções para a indústria caiu de 0,50% para 0,23% em 2019 e de 3% para 2,75% em 2020. Se essas expectativas se confirmarem, dificilmente haverá melhora significativa no quadro do emprego. Muito tempo ainda será necessário para a mudança de condição dos cerca de 25 milhões de desocupados, subempregados e desalentados.

Dias depois de o Ministério da Economia apresentar suas medidas, o BC anunciou a esperada redução da Selic, a taxa básica de juros, de 6,50% para 6%. Mudanças desse tipo em geral beneficiam o mercado de ações e, em certas circunstâncias, facilitam o crescimento econômico por meio da maior oferta de crédito. Mas para isso é necessário haver consumidores e empresários dispostos a tomar empréstimos para ir às compras ou para dinamizar seus negócios. Não está claro se reações como essas ocorrerão no Brasil a curto prazo.

Mas o Tesouro certamente será beneficiado, porque parte de sua dívida é vinculada à Selic. Para os bancos isso deverá representar uma perda, segundo a agência Moody’s de classificação de crédito. Emprestar dinheiro ao governo tem sido um excelente negócio para as instituições financeiras, mas o quadro tem mudado a partir da redução gradual dos juros iniciada no fim de 2016.

Em dezembro daquele ano, segundo a Moody’s, o investimento em títulos públicos proporcionou 35% da receita dos bancos. Em março deste ano essa parcela ficou em 27%. Foi uma redução notável, mas o governo superendividado continua sendo, sem dúvida, uma excelente fonte de ganhos para quem financia o Tesouro.

Juros menores poderão levar as instituições financeiras a uma competição mais intensa, segundo a Moody’s. Se isso ocorrer, a economia poderá ser impulsionada. Mas a análise é cautelosa: maior expansão do crédito, se confirmada, só deverá começar em 2020.

Mesmo as projeções moderadas têm como pressuposto um avanço na agenda de reformas. Isso parece garantido, por enquanto, pela disposição de parlamentares importantes. Mas permanece o risco de alguma ação desastrada do governo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.