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Geração catástrofe

Estratégias de recuperação são cruciais para compensar a ruptura escolar

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 03h00

É a mais severa ruptura da educação global da história. No pico da pandemia, mais de 1,6 bilhão de estudantes em mais de 190 países estavam fora da escola. Hoje, 2/3 da população mundial de estudantes (1 bilhão) em 100 países ainda são afetados pelo fechamento total ou parcial das escolas. Não à toa o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, se referiu aos estudantes que sofrem o impacto da peste sobre o ensino como “geração catástrofe”.

Segundo o estudo da Unesco Um ano de covid: Priorizar a recuperação da educação para evitar uma catástrofe geracional, antes da pandemia o número de crianças com déficits em habilidades básicas de leitura deveria cair de 483 milhões para 460 milhões. Com o vírus, o número saltou para 584 milhões. “A elevação de mais de 20% ceifou duas décadas de ganhos educacionais.”

Como sempre, o impacto sobre os estudantes vulneráveis e marginalizados foi mais duro. Apesar das necessidades críticas de financiamento, cerca de 2/3 dos países de renda baixa e média-baixa fizeram cortes no orçamento da educação. No mundo, só 2% dos estímulos fiscais foram orientados para a educação.

Em média, as escolas ficaram total ou parcialmente fechadas por 25 semanas. Em termos relativos, a América Latina, que foi a região mais impactada do ponto de vista sanitário e econômico, também deve sofrer as piores perdas de aprendizagem. O nível de proficiência de leitura na região já é historicamente baixo. No início de 2020, estimava-se que apenas 2/3 das crianças apresentavam proficiência na leitura. Na Europa e EUA, por exemplo, esse índice é de 95%. Agora, a região deve ver o maior declínio em termos porcentuais de proficiência – de 70% para 51% no grau 3 (8-9 anos), por exemplo.

A “ruptura escolar” é definida como “a perda de contato entre alunos e professores”. Para cada mês de contato perdido, presumem-se dois meses de aprendizagem perdidos. No Brasil, as condições são alarmantes. É o único grande país do mundo cujas escolas ficaram totalmente fechadas entre 75% e 89% do tempo. Somente Panamá, Honduras, El Salvador, Guatemala e Bolívia sofreram interrupções similares.

A Unesco estima que na média mundial o retorno à rota pré-pandêmica pode levar uma década, mas salienta que a retomada pode ocorrer até 2024 “se esforços excepcionais forem realizados para fornecer aulas corretivas e estratégias de recuperação”. No momento, apenas 1/4 dos estudantes no mundo está se beneficiando de educação corretiva.

A agência adverte que os gestores precisarão focar em duas questões: quão efetivas são as várias abordagens de aprendizagem sem contato; e quais os impactos das estratégias de mitigação de risco que estão sendo empregadas à medida que as escolas reabrem, como atendimento rotativo, uso de máscaras pelos alunos e a implementação de distanciamento físico nas salas. Uma das constatações relevantes é que as perdas foram maiores na leitura do que na matemática, aparentemente mais fácil de transmitir a distância.

Para garantir o retorno seguro, a Unesco recomenda que os professores sejam priorizados nas campanhas de vacinação. Também é importante continuar investindo em capacitação dos quadros letivos no ensino remoto, tecnologias disponíveis e pedagogias flexíveis para o ensino online, híbrido e offline durante futuros fechamentos escolares.

Segundo o levantamento, a ferramenta que se mostrou mais eficiente para lidar com os déficits de aprendizagem precipitados pela pandemia é o programa de ensino corretivo TaRL (Teaching at the Right Level). Um componente-chave dessa abordagem envolve o reagrupamento dos alunos conforme suas habilidades, em oposição ao grau escolar. O programa também é reputado como um exemplo de promoção de educação inclusiva, ao reduzir o número de alunos marginalizados que ficam para trás.

Para todo o mundo, os principais ingredientes da fórmula da recuperação são o retorno seguro às escolas, a inclusão digital, o ensino híbrido, a requalificação dos professores e, principalmente, o ensino corretivo. Desgraçadamente, Brasília tem dado muito pouca atenção a todos eles.

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