Gestão privada, espaço público

Concessão do Anhangabaú tem bons resultados a mostrar, mas falta de segurança continua sendo desafio

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2022 | 03h00

Revitalizar o centro da cidade de São Paulo, permitindo que moradores da capital e de fora usufruam de uma área histórica e repleta de beleza arquitetônica, tem sido um desafio permanente nas últimas décadas. Daí ser motivo de comemoração que o Vale do Anhangabaú, como noticiou o Estadão, comece a se firmar como polo de cultura e lazer seis meses após a sua concessão à iniciativa privada. Por óbvio, muito ainda precisa ser feito, e a melhoria das condições de segurança deve ser foco de atenção permanente. Mas a experiência já se mostrou capaz de produzir alguns bons resultados e merece ser acompanhada de perto.

Por definição, o espaço público é de todos. No Vale do Anhangabaú, assim como em ruas, calçadões, largos e praças, isso envolve não apenas o direito de ir e vir, mas a possibilidade de desfrutar o que cada ambiente tem para oferecer − com segurança e boas condições de acesso, iluminação, limpeza e infraestrutura. Na dinâmica das grandes cidades brasileiras, porém, e São Paulo não é exceção, inúmeras áreas públicas acabam degradadas, privando seus moradores, assim como turistas e demais visitantes, do direito de aproveitá-las.

A concessão do Vale do Anhangabaú é uma tentativa da Prefeitura de São Paulo de responder a esse desafio. Desde o início do projeto de revitalização, a cidade já teve quatro prefeitos. Quando o edital de concessão foi publicado, em 2020, na gestão de Bruno Covas (PSDB), a Prefeitura deixou claro que a ideia era transformar o local em espaço de permanência de pessoas, e não somente de passagem. Ao que parece, o objetivo está sendo alcançado: cerca de mil atividades foram promovidas desde dezembro, segundo a concessionária responsável.

A programação é diária e gratuita. A reportagem acompanhou uma aula de dança, do tipo samba-rock, com a participação de aproximadamente cem pessoas, por volta das 20h de uma quinta-feira. Mais gente chegou na hora seguinte, confirmando aquilo que se sabe: há demanda de sobra por atividades culturais, esportivas e de lazer, principalmente se forem de graça ou com baixo custo. Acompanhado da mãe e da avó, o estudante de mestrado Gustavo Luís da Silva pegou um ônibus na Casa Verde, na zona norte, para ter aula de dança no Vale do Anhangabaú.

A segurança, claro, preocupa: “Todo mundo sabe que é melhor não usar o celular em público e evitar andar sozinho”, disse o estudante ao Estadão. Gangues de bicicletas roubam celulares na região, onde recentemente ocorreram arrastões e furtos na Virada Cultural. Outro problema são os quiosques de alimentação, previstos no edital, mas que continuam fechados.

O contrato de concessão é de dez anos. Em troca da exploração comercial, com exclusividade na venda de produtos em eventos não ligados à Prefeitura, a concessionária assumiu a gestão, manutenção, conservação, vigilância e limpeza do local. É um modelo que certamente pode ser aprimorado, mas, mesmo com suas imperfeições, é inegável que, depois de décadas de tentativas fracassadas de revitalização do centro paulistano, o caso do Anhangabaú é um alento.

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