Golpe

A crise na Venezuela é tão grave que o país tem hoje dois presidentes e três Parlamentos disputando poder

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2020 | 03h00

Tal é a gravidade da crise na Venezuela que hoje, a rigor, o país vizinho tem dois presidentes e três Parlamentos disputando poder. Seria cômico se esse imbróglio não produzisse resultados tão trágicos para o povo daquele país, que sofre há tanto tempo.

O ditador Nicolás Maduro segue cada vez mais confiante em sua permanência à frente do Palácio de Miraflores, respaldado pela força dos militares e milicianos que ainda lhe prestam vassalagem em troca de benesses de toda sorte. A esta casta armada que garante a sustentação do governo não só foram dados postos-chave da administração pública e de empresas estatais, como uma espécie de carta branca para a prática de crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e contrabando, o que enriqueceu da noite para o dia muitos oficiais.

Em contraposição a Maduro na presidência da Venezuela está o deputado Juan Guaidó, autodeclarado presidente encarregado há quase um ano. Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, de maioria oposicionista, foi reconhecido como presidente da república por mais de 50 nações, incluindo o Brasil, após o Poder Legislativo venezuelano não reconhecer a legitimidade da reeleição de Maduro em maio de 2018, um pleito que, de fato, foi eivado de fraude do início ao fim.

Para manter-se na posição de presidente encarregado da Venezuela e seguir sua campanha para aumentar a pressão internacional sobre o regime chavista, era fundamental que Guaidó fosse reconduzido à presidência da Assembleia Nacional em eleição marcada para o domingo passado. No entanto, deputados chavistas, com apoio de tropas leais a Maduro, bloquearam a entrada no Congresso dos parlamentares da oposição, impedindo o atingimento do quórum de votação que levaria Guaidó à reeleição. Foi um golpe, não resta dúvida.

Em votação que contou apenas com a presença de deputados chavistas, Luis Parra foi eleito como novo presidente da Assembleia Nacional. Logo após o fim da votação fajuta, Maduro comemorou a “vitória” do governo e saudou o deputado Parra. Ato contínuo, os Estados Unidos e o Grupo de Lima, do qual o Brasil faz parte, emitiram declarações em que não reconheciam a legitimidade de Luis Parra como novo chefe do Poder Legislativo, que na Venezuela é unicameral.

A Assembleia Nacional não era reconhecida pelo regime de Nicolás Maduro desde 2017, quando foi “fechada” por ordem da Justiça. No lugar, a ditadura criou a Assembleia Constituinte, comandada por Diosdado Cabello, o segundo na hierarquia do regime.

Impedidos de ter acesso ao Congresso, os deputados oposicionistas realizaram uma sessão legislativa “paralela” em um hotel de Caracas, ocasião em que Juan Guaidó foi, enfim, reeleito como presidente da Assembleia Nacional.

Há hoje, portanto, três homens disputando a chefia do Poder Legislativo na Venezuela: Juan Guaidó, Luis Parra e Diosdado Cabello. O único que foi eleito de acordo com as regras democráticas, ainda que formalidades possam não ter sido cumpridas em função da força do regime, é Juan Guaidó.

Os caminhos da longa crise na Venezuela são demasiado tortuosos para que se aviste, ao menos por ora, qualquer possibilidade de saída a curto prazo. Maduro não dá sinal de que esteja disposto a negociar um fim para o impasse que tem custado muito caro para o povo venezuelano. O povo, aliás, é a menor de suas preocupações. Por sua vez, Guaidó vem perdendo força em sua campanha para enfraquecer o regime chavista e negociar uma transição democrática, tanto pela própria resiliência do regime como por erros de cálculo que ele mesmo cometeu, como a frustrada tentativa de levante militar em abril de 2019.

A situação hoje é favorável ao ditador Nicolás Maduro. Os Estados Unidos têm outras preocupações mais urgentes. O Brasil pode pouco além do que já vem fazendo no campo diplomático. E as forças de oposição no país vizinho veem cada vez mais tolhidas as suas possibilidades de ação. Triste povo.

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