Governança em tempos de crise

Na falta da liderança de Jair Bolsonaro, ouvir quem já a exerceu serve como alento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 03h00

Seria de suma importância para a Nação poder contar com a liderança do presidente da República na condução da gravíssima crise sanitária, social e econômica que ora o Brasil atravessa. Ouvir sua firme voz de comando, deixar-se guiar por suas orientações prudentes e sentir o amparo advindo da genuína empatia da máxima autoridade executiva do País faria a Nação lidar melhor com as dificuldades de hoje e temer um pouco menos o futuro. Mas o Brasil é presidido por Jair Bolsonaro, de quem não se pode esperar nada disso, seja porque ele é desprovido das qualidades mínimas que um presidente deve ter, seja porque o interesse nacional seria sempre sobreposto por seus interesses particulares.

Na falta da liderança de quem cabe exercê-la no momento, ouvir as palavras de quem já a exerceu em crises passadas, e bem, serve como alento. Na abertura do Fórum Brasil UK 2020, evento organizado pela comunidade de estudantes brasileiros no Reino Unido, com apoio do Estado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez importantes comentários sobre governança em tempos de crise. Além de ter ajudado, como então ministro da Fazenda, a implementar o Plano Real e, enfim, debelar a hiperinflação, não foram poucas as crises domésticas e internacionais que FHC teve de enfrentar em seus dois mandatos presidenciais. Portanto, ele sabe do que fala.

Em entrevista ao brasilianista Timothy Power, da Universidade de Oxford, FHC disse que o primeiro passo de um presidente ao se deparar com uma crise é ouvir com humildade os especialistas. Entendido o problema, sua dimensão e desdobramentos, cabe ao chefe de Estado e de governo dialogar francamente com a sociedade, traçar objetivos claros, engajar os cidadãos e liderá-los. Na visão do ex-presidente, Bolsonaro é incapaz de seguir esse roteiro básico porque se mostra tão perdido quanto a sociedade. “A sensação que temos é que estamos perdidos e o presidente também. O governo está um pouco sem rumo”, disse FHC, elegantemente. Se o governo estivesse apenas “um pouco” sem rumo, o País passaria melhor.

Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República prometendo combater a corrupção e restaurar o equilíbrio fiscal. Uma mixórdia de promessas chamada “nova política”, envernizada por uma retórica “conservadora” (a bem da verdade, reacionária), funcionou eleitoralmente como um esboço de rumo para a Nação, mas logo sucumbiu à realidade. A sociedade já não vê Bolsonaro como fiador da agenda anticorrupção, como atesta uma variedade de pesquisas de opinião, e tampouco se sustenta, ao menos por ora, a defesa da austeridade fiscal, solapada pela imposição de pesados gastos públicos em decorrência da pandemia de covid-19 e, principalmente, pela falta das prometidas reformas. Sem uma agenda concreta para apresentar ao País e tragado por uma crise sanitária com múltiplos desdobramentos, as deficiências de Bolsonaro ficaram ainda mais evidentes. Para FHC, o presidente foi substituído pela imprensa profissional na condução do diálogo com a sociedade nessa hora grave. Bolsonaro só fala para os seus.

A imprensa livre, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal têm sido fundamentais na defesa do Estado de Direito. Jair Bolsonaro, na visão de FHC, não tem propriamente um projeto autoritário de poder, mas isto não significa que a democracia não esteja sob risco no País. “A retórica do presidente vai no sentido do autoritarismo, mas na mão dele não se sente a espada. Estamos numa zona cinzenta, ainda bem. Vai depender da reação (da sociedade aos arroubos bolsonaristas). Mesmo não tendo esse projeto (autoritário), Bolsonaro pode chegar lá. É um momento perigoso”, disse o ex-presidente. Um governo autoritário não pode se instalar por inércia no País. Não se pode tolerar pequenos ou grandes abusos diários e afrontas às leis e à Constituição.

A grande lição deixada por FHC no evento de abertura do Fórum Brasil UK 2020, que também contou com a participação da ex-presidente Dilma Rousseff, é a de que o regime democrático requer diálogo, negociação. E negociar não significa, necessariamente, corromper-se. É possível formar uma coalizão em torno de planos. Cabe ao presidente apresentá-los se for capaz.

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