Guedes recicla promessas

Escondendo o fracasso das privatizações, ministro fala em vender patrimônio da União para combater a pobreza

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2021 | 03h00

Por onde Paulo Guedes andou nos últimos três anos? Menos do que zombaria, a pergunta tem um duro conteúdo real. Do que Guedes e seu chefe, o atual presidente da República, prometeram na campanha eleitoral de 2018, pouco ou nada foi feito. Reformas estruturais, como a da Previdência e a administrativa, a redução da dívida pública, o equilíbrio fiscal, as privatizações, entre outros pontos do programa econômico, pouco ou nada avançaram. Hoje soa irônica a solene promessa do candidato Jair Bolsonaro: “Propomos um governo decente, diferente de tudo aquilo que nos jogou em uma crise ética, moral e fiscal”.

Às vésperas do início de nova campanha eleitoral, o ministro Paulo Guedes, outrora considerado o grande avalista do programa de reformas, volta com promessas velhas e de inspiração eleitoreira: privatizar estatais, vender boa parte do patrimônio, cobrar velhas dívidas que a União tem a receber. Não fez nada em três anos e agora promete fazer tudo em um ano – um ano eleitoral, ressalte-se. Há crédulos para tudo.

Para estes, o discurso de Guedes continua exuberante. Os números que o ministro da Economia apresenta são expressivos, embora pouco contenham de novidade. Guedes agora tenta convencer sua audiência de que os bens e direitos da União constituem um imenso cofre de fortunas que, bem utilizadas, resolveriam todos ou quase todos os problemas do País, da pobreza de milhões de brasileiros ao desequilíbrio das finanças públicas.

“O Estado tem R$ 4 trilhões, R$ 1 trilhão em imóveis, R$ 1 trilhão em estatais e R$ 2 trilhões em recebíveis”, citou Guedes, durante evento sobre governança das estatais organizado por seu Ministério. “Uma fortuna incalculável, e o povo pobre e miserável”, comparou, para em seguida defender o uso desses recursos para combater a miséria. Parece coisa simples: “Vende alguns ativos aqui e enche o tanque do fundo”, referindo-se a um fundo que seria destinado a combater a miséria e cujas despesas, segundo sua proposta, não estariam sujeitas ao teto de gastos. Um novo “Ministério do Patrimônio da União” cuidaria disso.

Se é tão simples, por que o governo ainda não fez isso e só passará a discutir a questão no ano que vem, visto que, como entende o ministro da Economia, a campanha eleitoral de 2022 terá entre seus temas “como erradicar a pobreza, reduzir o endividamento, baixar as taxas de juros no Brasil, como transformar o capital público”? A ideia parece ter surgido na fala do ministro não para resolver um real e gravíssimo problema social da pobreza que ele tem ignorado ou tratado com desdém, mas como prenúncio de tema a ser explorado eleitoralmente.

O objetivo da venda de bens da União já foi a redução da dívida. O programa de governo de Bolsonaro fixava, entre outras metas, a redução da dívida pública em 20% mediante privatizações, concessões e venda de propriedades da União. Quase nada foi privatizado. Agora, com a perda de apoio ao governo nas regiões menos desenvolvidas, Guedes começa a falar em ajudar os pobres. Só acredita quem, depois de tanta empulhação, ainda estiver disposto a acreditar nesse governo. 

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