Guerra enfraquece o comércio global

Invasão da Ucrânia prejudicou negócios, reduziu o crescimento da economia e pode deixar os pobres mais pobres

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2022 | 03h00

O impacto sobre o comércio mundial da invasão da Ucrânia pela Rússia foi direto, com a abrupta suspensão dos embarques dos principais produtos de exportação dos dois países e a imediata alta dos preços de importantes commodities, do trigo ao petróleo. Os efeitos continuam e persistirão. O comércio mundial perdeu dinamismo, ficou menor do que poderia ser e pode se fragmentar em blocos formados por interesses geopolíticos, o que o fragilizaria ainda mais. A economia mundial também será afetada. E, como em outras crises, os países mais pobres sofrerão mais. Em todo o mundo, as famílias de renda mais baixa sentirão a crise mais do que as outras, pois entre os preços que mais sobem estão os dos alimentos.

Talvez este cenário denote um certo pessimismo num quadro mundial marcado pelos horrores da guerra. Mas não é improvável. A Organização Mundial do Comércio (OMC), sucessora de uma das instituições criadas após o fim da 2.ª Guerra para assegurar a paz e o crescimento mundial, adverte que a invasão da Ucrânia pode estimular a criação de blocos baseados em interesses geopolíticos, o que tornaria mais frágil o comércio internacional. Isso enfraqueceria o potencial da economia mundial, cujo crescimento poderia ser reduzido em até 5% no longo prazo.

Mas os efeitos imediatos já são notáveis. Por causa da guerra na Ucrânia, a OMC reduziu de 4,7% para 3,0% o crescimento do comércio mundial neste ano. Para 2023, a projeção é de aumento de 3,4%. Para a economia mundial, que cresceu 5,1% em 2021, a OMC reduziu sua previsão de crescimento em 2022 de 4,1% para 2,8%.

O relatório não trata diretamente da inflação, mas esta, que afeta duramente a renda dos brasileiros (foi de 11,3% nos 12 meses terminados em março), se tornou problema mundial. Nos Estados Unidos, alcançou 8,5%, a maior em mais de 40 anos. É outro efeito da guerra, que fez subir os preços de combustíveis e alimentos, além dos custos industriais, entre outros itens.

“A guerra da Ucrânia causa imenso sofrimento humano, mas também prejudica a economia mundial em um momento crítico”, disse a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala. O impacto será particularmente mais forte nos países de baixa renda, nos quais os alimentos estão entre os maiores gastos das famílias. Em entrevista ao Estadão em março, Ngozi Okonjo-Iweala já dizia que seu grande temor com relação aos impactos da guerra era o risco de surgimento de uma nova crise alimentar no mundo. Rússia e Ucrânia são grandes exportadores mundiais de trigo e a interrupção de suas vendas externas por causa da guerra afetou o preço do pão em todo o mundo. “Em muitos países pobres, pão é uma comida básica”, disse ela ao jornal.

Quanto ao risco de “desintegração da economia em diferentes blocos”, a resposta, diz a OMC, é o fortalecimento multilateral baseado em regras claras. É uma advertência aos países-membros da organização, cujo papel foi duramente combatido e boicotado pelo então presidente americano Donald Trump e ainda aguarda seu total restabelecimento.

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