Guerra nunca é ‘boa oportunidade’

Ao utilizar a guerra para avançar suas propostas anti-indígenas, Bolsonaro reafirma sua falta de limites morais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 03h00

Se verdadeiros estadistas crescem nas crises, o inverso também é verdadeiro: falsos estadistas encolhem. Na pandemia, o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro ante a crise climática foi complementado pelo negacionismo sanitário. Negando-se a condenar a agressão à Ucrânia, ele encolheu ainda mais. Mas, mais do que a sua pequenez, essas crises revelaram a sua falta de limites morais. Não é só negacionismo, é oportunismo. Segundo Bolsonaro, a guerra trouxe uma “boa oportunidade” para aprovar seu projeto de lei liberando a mineração nas terras indígenas.

Ao negar a ameaça do vírus, o governo contribuiu para negar o direito dos brasileiros à saúde e a políticas educacionais (para compensar o fechamento das escolas), sociais (para mitigar o impacto da recessão) e econômicas (para pôr o País na rota da recuperação). Mas a crise foi também uma oportunidade para insuflar apoiadores contra autoridades como os governadores ou a Suprema Corte. O negacionismo ambiental, além de causar diretamente a destruição dos biomas brasileiros, ameaça compromissos internacionais, as exportações do agronegócio e o ingresso de investimentos.

Se o negacionismo sanitário expôs o Brasil ao ridículo, o negacionismo ambiental o expõe ao isolamento. O negacionismo geopolítico completa a obra mesclando ambos os efeitos.

Quando 190 mil soldados russos cercavam a Ucrânia, Bolsonaro prestou “solidariedade” à Rússia. No dia da invasão, deu duas entrevistas, mas preferiu falar de futebol. Após dias de silêncio, falou em “neutralidade”. Agora fala em “isenção”. Para justificá-las, disse que o Brasil deve ser independente das outras nações ocidentais e que “a questão do fertilizante é sagrada”. Sobre a sacralidade da soberania da Ucrânia, ou das vidas dos ucranianos, nem uma palavra. Tampouco as vidas dos brasileiros na Ucrânia parecem sagradas: no dia da invasão, o governo confessou que não tinha planos para evacuar seus nacionais.

Tal como Bolsonaro e seus correligionários viram no pânico deflagrado pelo vírus uma oportunidade para “passar a boiada” e legalizar sua artilharia antiambiental, agora encontraram na guerra uma “boa oportunidade” para tratorar os direitos dos povos indígenas.

Bolsonaro alega que o Brasil já teria superado a dependência de fertilizantes russos se pudesse explorar grandes minas de potássio nas terras indígenas de Autazes, na Amazônia. A alegação, como mostrou o Estadão, é duplamente falsa. Primeir,o porque existem atualmente 544 processos de exploração de potássio no País e centenas de pedidos sem qualquer conflito com a legislação ambiental. Depois, porque a exploração em Autazes já é possível desde que seja negociada com os indígenas e comprove medidas de mitigação de impacto ambiental.

Genuínos estadistas veem na agressão de um país a outro um evento execrável e buscam se unir para fazer valer as regras do direito internacional. Estadistas medíocres confundem independência com isenção. Os oportunistas, além de tudo, esfregam as mãos quando a guerra oferece uma “boa oportunidade”.

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