Guerra, sombra e água fresca

Como se o Brasil não fizesse parte do mundo, Bolsonaro passeia e faz campanha eleitoral em vez de preparar o País para os efeitos da guerra na Ucrânia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2022 | 03h00

Enquanto dirigentes dos principais países se mobilizavam para evitar o agravamento da crise internacional provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia e minimizar seus múltiplos impactos sobre a economia mundial, despreocupadamente o presidente Jair Bolsonaro caminhava no meio de apoiadores em nítido clima de campanha eleitoral fora de época e participava de “motociata” no interior de São Paulo. Era como se o Brasil estivesse livre das consequências que com certeza terá de enfrentar. Pressões sobre os preços internos por conta do aumento da cotação do petróleo, dificuldades de suprimento de bens essenciais, como fertilizantes e trigo, e queda da demanda de importantes itens da pauta de exportações do País são alguns dos efeitos previsíveis, embora seu impacto ainda seja difícil de aferir. A atividade econômica interna, já baixa demais, pode diminuir.

Agindo de modo irresponsável na questão russo-ucraniana, inclusive com um encontro em Moscou com o autocrata russo, Vladimir Putin, e uma declaração antecipada de “solidariedade” ao país poucos dias antes da invasão da Ucrânia, Bolsonaro apenas se mostra, mais uma vez, como efetivamente é. Desde sua posse, exibe incrível inaptidão para o cargo, desconhecimento de seu papel nos planos interno e internacional e desprezo por tudo que não lhe renda supostos ganhos eleitorais.

Mas não quer perder a pose. Quando soube que o vice-presidente da República, general da reserva Hamilton Mourão, cobrara um posicionamento mais firme do Brasil em defesa da soberania das nações, o que significa uma crítica clara ao governo russo, Bolsonaro reagiu à sua moda. Em sua live semanal das quintas-feiras, afirmou que “quem fala sobre o assunto (relações exteriores) é o presidente da República, e chama-se Jair Bolsonaro”. Nem precisava dizer: a desastrosa política externa brasileira tem a assinatura inconfundível de Jair Bolsonaro.

Sempre que resolve exercer a autoridade que julga não ser reconhecida, o País padece. Que o digam os que sofreram ou sofrem com a pandemia de covid-19 e com a crise econômica e social que trava o crescimento, retarda a recuperação do mercado de trabalho, comprime a renda de quem consegue manter uma ocupação e empurra milhões de cidadãos para abaixo da linha de pobreza.

A respeito da agressão russa contra a Ucrânia, que lançou o mundo em grave incerteza, Bolsonaro, malgrado reivindicar o poder que a Constituição já lhe garante, não teve nada relevante a dizer. Pior: tampouco anunciou qualquer iniciativa para demonstrar que seu governo está mobilizado para elaborar medidas coordenadas no sentido de minimizar o impacto da crise no Brasil, que tende a ser considerável.

Com a iminência da chegada ao Brasil das consequências mais diretas da invasão da Ucrânia sobre a atividade econômica, Bolsonaro provavelmente já está empenhado em arranjar mais desculpas – sua especialidade – para fugir da responsabilidade que, esta sim, é própria de seu cargo. 

Especialista em criar ilusionismos, Bolsonaro talvez diga ao eleitorado que o País vinha bem, mas a guerra na Europa, ora vejam, impediu que a recuperação se acelerasse. Se fizer isso, mentirá duas vezes: uma, porque o País já vinha mal, mesmo antes da pandemia de covid-19, e a guerra, assim como o vírus, nada tem a ver com a incompetência do governo; outra, porque, se a questão ucraniana afetar a economia brasileira, como se presume, apenas acentuará os erros que se acumularam nos últimos três anos.

O País já se acostumou, e até faz piada disso, com as seguidas promessas de “recuperação em V” anunciadas pelo desacreditado ministro da Economia, Paulo Guedes, mesmo diante de indicadores que demonstram crescimento medíocre, inflação e persistente desemprego. O problema é que a piada está ficando muito sem graça – e o isolamento progressivo do Brasil no cenário internacional, intensificado por ações, inações e declarações obtusas de Bolsonaro sobre a crise europeia, somado à dedicação exclusiva do presidente à reeleição, tende a piorar uma situação que já seria ruim mesmo se o Brasil tivesse um governo decente.

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