Hora de programar a retomada

Guedes reafirma prioridade à vida e fala em retomada no ‘devido tempo’

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 03h00

O ministro da Economia, Paulo Guedes, mostrou juízo ao defender uma saída cautelosa do isolamento. “Preservar os sinais vitais da economia não significa sair do isolamento agora. (…) Significa fazer a coisa programada, fazer direito, fazer no devido tempo, mas sabendo que esse é o ponto futuro”, disse ele em videoconferência na véspera do feriado. Não definiu o “devido tempo”, mas deixou claro o respeito à orientação dos especialistas e dos médicos de UTI. Mais que isso, reafirmou o respeito ao ser humano: “Salvar vidas é a prioridade”. Mas foi diplomático em relação ao presidente. Não mencionou seu menosprezo à vida dos brasileiros nem reconheceu como antidemocrática sua presença em manifestação a favor de um golpe. Chegou a qualificá-lo como democrata, mas pode-se deixar de lado essa parte de seu pronunciamento.

Programar a saída é o passo inicial para a reativação. É preciso definir datas, extensão e ritmo da abertura. Alguns governos, como o de São Paulo, já desenharam a fase inicial. Não se deve cuidar apenas da retomada econômica. É preciso continuar levando em conta, neste ano e talvez por mais tempo, a prevenção do contágio.

Economistas poderão calcular a retomada a partir de tipos selecionados de empresas, mas o planejamento prudente será multidisciplinar. Se o poder central participar do esforço e promover alguma coordenação, tanto melhor. Mas para isso será indispensável deixar de lado, por algum tempo, a preocupação do presidente com fantásticos rivais na eleição de 2022.

Também será preciso combinar a reativação com o conserto das contas públicas. O Brasil chegará a dezembro com um buraco fiscal muito maior que o previsto no começo do ano. O governo central poderá contabilizar um buraco financeiro no intervalo de R$ 500 bilhões a R$ 600 bilhões, sem contar os juros vencidos. Será, na melhor hipótese, pouco mais que o quádruplo do valor calculado há alguns meses.

A dívida bruta do governo geral - da União, de Estados e municípios - poderá estar entre 85% e 90% do Produto Interno Bruto (PIB). Em fevereiro estava pouco abaixo de 80% e a equipe econômica tentava mantê-la por aí. Na videoconferência, o ministro da Economia fez mais um alerta, no entanto, sobre o projeto de ajuda aos Estados, ainda em exame no Congresso. Se a ajuda for excessiva e sem regras disciplinares, o quadro fiscal poderá ficar ainda pior.

Combinar crescimento econômico e ajuste das contas públicas é quase sempre um duro desafio. Mas desta vez a harmonização das duas tarefas talvez seja mais fácil, se não ocorrer nenhuma grande imprudência. As empresas sobreviventes terão muita capacidade ociosa. A oferta de mão de obra será abundante. Se as condições de crédito permanecerem favoráveis, a retomada, no próximo semestre e principalmente no próximo ano, será facilitada.

Mas a reação será tanto mais pronta quanto menor o estrago na pior fase da pandemia. As medidas anticrise já apresentadas pelo governo proporcionam alguma sustentação até o fim deste semestre. Por enquanto, facilidades adicionais têm sido anunciadas na área do crédito. As condições de financiamento ainda poderão ficar um pouco melhores se houver novo corte dos juros básicos.

Essa possibilidade foi indicada pelo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, na segunda-feira, em evento da série Estadão Live Talks. Segundo ele, o BC está monitorando os volumes e preços do crédito e, em caso de necessidade, poderá tomar novas medidas para melhorar a oferta. Isso ocorrerá, explicou, se os bancos ainda tiverem medo de emprestar.

Apesar das muitas incertezas, o ministro Paulo Guedes tentou transmitir algum otimismo em sua fala antes do feriado. Não se conhece ainda a profundidade da crise, admitiu, mas a economia, segundo ele, parece ter escapado, até agora, de uma desorganização. A reativação, afirmou, poderá ser tão rápida quanto a queda. Mas a recuperação, é bom lembrar, será o mínimo indispensável. É preciso ambicionar muito mais que o estado da economia antes da crise do coronavírus.

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