Hora do pesadelo

Paulistanos se tornam reféns de foliões que estendem seu carnaval até altas horas

Notas e Informações, O Estado de S. Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 03h00

O carnaval de rua veio para ficar. O número de blocos autorizados pela Prefeitura de São Paulo a desfilar entre os dias 15 de fevereiro e 1.º de março chegou a 644, 180 a mais do que no ano passado. Haverá 678 desfiles em cerca de 400 pontos da cidade. São dados que mostram a potência econômica e turística desse evento para a cidade. Dessa forma, cabe às autoridades competentes cuidar para que um acontecimento dessa magnitude transcorra da maneira mais tranquila possível, não apenas para os milhares de participantes, mas também para os que, malgrado não queiram participar da festa, são obrigados a conviver com seus efeitos mais danosos – sejam as interdições que obrigam moradores a alterar drasticamente sua rotina de deslocamentos, seja a incivilidade de muitos dos foliões.

O potencial econômico dos desfiles carnavalescos ajuda a explicar o exponencial crescimento dos blocos e a atração de cada vez mais turistas. Esse gigantismo pode representar ganhos para a cidade, mas é um enorme desafio para a Prefeitura. A julgar pela experiência dos anos anteriores, o ambiente para os foliões tem sido em geral satisfatório. O problema é que a Prefeitura tem sido incapaz de oferecer o mesmo tratamento àqueles – grande maioria – que não estarão nos desfiles. Para estes, o carnaval é a hora do pesadelo, que vem se tornando mais tétrico a cada ano que passa.

Mais blocos e mais desfiles pela cidade significam mais sujeira, mais barulho, mais ruas fechadas. Paulistanos se tornam reféns dentro de suas próprias casas, tendo de suportar, dia e – principalmente – noite, a algazarra de foliões que estendem a festa até altas horas, fazendo seu carnaval particular em local público.

Tem limitado alcance a ordem da Prefeitura de fechar bares na região da Vila Madalena e do Largo da Batata até as 22 horas durante o carnaval, na presunção de que os foliões, resignados, tomarão o caminho de casa. Muitos deles trazem sua própria cerveja, em geladeiras de isopor, ou então adquirem bebidas de vendedores ambulantes ilegais, e fazem a festa com caixas de som próprias, que infernizam os paulistanos que só querem e precisam dormir.

Não há possibilidade de diálogo com quem é tão incapaz de viver em sociedade – ninguém que more perto das regiões que recebem os desfiles será imprudente a ponto de ousar argumentar com esses tipos, que em grupo e sob o efeito de álcool tendem a ser indiferentes aos apelos e podem reagir com violência. “Não adianta fechar os bares, porque o quadrilátero vai ficar lotado do mesmo jeito”, afirmou o presidente da Sociedade Amigos de Vila Madalena, Cassio Calazans. Nesse caso, só cabe aplicar o rigor das diversas leis que punem a perturbação do sossego.

Ao mesmo tempo que aceita e estimula a expansão do carnaval de rua na cidade, a Prefeitura tem demonstrado escassa capacidade para coibir o comportamento selvagem dos que abusam do direito de se divertir na festa. Mas as vítimas desse descaso começam a reagir.

Um abaixo-assinado de moradores da Vila Leopoldina levou a Prefeitura a desistir de incluir a Avenida Gastão Vidigal, a principal do bairro, no circuito dos blocos. Os moradores disseram que “a região não é servida por metrô e a extensão da avenida não comporta grandes multidões”. Além disso, “a estrutura de forças de segurança local não comporta eventos dessa magnitude” e “haverá multidões apertadas no calor”, com “barulho, sujeira, urina e vandalismo”, sem falar no cerceamento do direito de ir e vir e do prejuízo ao comércio – que inclui a Ceagesp.

A Prefeitura aparentemente aceitou parte dos argumentos, ao dizer que cancelou o desfile na Avenida Gastão Vidigal “por motivo de organização e otimização dos espaços públicos”. A vitória dos moradores da Vila Leopoldina é um alento para os paulistanos que se sentem destituídos de sua condição de cidadãos durante o carnaval – período no qual, para muitos, a lei e as regras de civilidade deixam de valer.

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