Ignorância dos algoritmos

É cada vez mais frequente o armazenamento de uma grande quantidade de informações sobre o comportamento das pessoas na internet

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2019 | 03h00

Há uma grande distância entre o que o Facebook faz com os dados de seus usuários e o grau de conhecimento que os usuários têm da atuação da rede social, revelou pesquisa do Pew Research Center. A disparidade é de tal ordem que, por exemplo, 74% dos usuários não sabiam que o Facebook armazena para fins comerciais uma série de informações sobre seus interesses pessoais. A pesquisa foi realizada com adultos residentes nos Estados Unidos. Não há indícios de que os usuários brasileiros estejam mais bem informados. Os dados preocupam, já que revelam um frágil conhecimento e, consequentemente, um débil consentimento sobre o uso que a rede faz das informações sobre seus usuários.

É cada vez mais frequente o armazenamento de uma grande quantidade de informações sobre o comportamento das pessoas na internet. Esses dados são amplamente utilizados para fins comerciais, como, por exemplo, para segmentar a publicidade que é apresentada a cada pessoa que navega na internet. A pesquisa Algoritmos do Facebook e Dados Pessoais teve por objetivo avaliar o grau de compreensão que os usuários do Facebook têm sobre os sistemas de classificação baseados em algoritmos e se eles consideram que essas classificações refletem com acuidade suas personalidades.

Após responderem a um questionário, os entrevistados foram orientados a entrar na página “suas preferências de anúncios”, que o Facebook gera para cada usuário. Foi apenas nesse momento que a grande maioria das pessoas (88%) soube que a rede social tinha gerado um material específico sobre elas. Ao descobrirem esse conteúdo, 59% afirmaram que as preferências listadas pelo Facebook correspondiam em alguma medida a seus interesses reais. Já 27% avaliaram que a listagem era imprecisa.

Mais da metade dos entrevistados (51%) mostrou-se desconfortável com a existência de uma lista de preferências pessoais criada pela plataforma. Apenas 5% disseram estar muito confortáveis com a lista de interesses.

A pesquisa também avaliou a percepção dos entrevistados sobre duas listagens que o Facebook faz de alguns usuários: sobre suas tendências políticas e sobre suas afinidades étnicas e culturais. Cerca de metade dos entrevistados (51%) havia recebido do Facebook uma determinada classificação política, distribuída em três grupos: liberais, conservadores e moderados. Sobre esse tópico, 73% consideraram-se fielmente retratados e 27% disseram que a avaliação política recebida era imprecisa.

Em relação às afinidades étnicas e culturais, 21% dos usuários haviam recebido uma determinada classificação. De acordo com o algoritmo do Facebook, 43% tinham interesse na cultura afro-americana; 43%, na cultura hispânica; e 10%, na cultura asiático-americana. Sobre esse tópico, 57% disseram que o Facebook havia acertado sobre a sua afinidade cultural e 39% não se consideravam membros do grupo designado pelo Facebook. O grau de acerto é baixo.

O uso da afinidade multicultural pelo Facebook para segmentar o público dos anúncios causa controvérsias. No ano passado, após pressão do Congresso americano, a rede assinou acordo com o Procurador-Geral do Estado de Washington comprometendo-se a proibir que os anunciantes excluíssem ilegalmente usuários por questões de raça, religião e orientação sexual, entre outros critérios discriminatórios.

No ano passado, o Congresso aprovou a Lei 13.709/2018, que regula o tratamento de dados pessoais, também nos meios digitais. “Toda pessoa natural tem assegurada a titularidade de seus dados pessoais e garantidos os direitos fundamentais de liberdade, de intimidade e de privacidade”, prevê a lei. Há um longo caminho, seja para uma melhor compreensão por parte da população dos seus direitos, seja para uma prática que respeite de fato a liberdade, a intimidade e a privacidade. Há certamente algo a ser aperfeiçoado quando empresas lucram tanto com dados dos usuários sem que eles saibam exatamente o uso que é dado a essas informações.

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