Impostura em rede nacional

Para Jair Bolsonaro, vacinas, reformas e privatizações são palavras vazias, que ele usa em seu discurso eleitoreiro para enganar otários

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2021 | 03h00

O presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional na quarta-feira para prestar contas das ações de seu governo em meio à pandemia de covid-19. Na prática, contudo, o discurso serviu como mais uma das peças de propaganda de sua campanha à reeleição, iniciada assim que tomou posse. Nessa condição, Bolsonaro fez o que os maus políticos fazem nos palanques: distorceu fatos e inventou conquistas e qualidades inexistentes em seu governo.

A impostura começou logo na primeira frase: “Sinto profundamente cada vida perdida em nosso país”. Depois de passar mais de um ano desdenhando da morte em massa de seus compatriotas, o presidente resolveu “sentir profundamente” – mas, ocupado demais com passeios de moto, comícios golpistas e banhos de mar, ainda não encontrou tempo para visitar os hospitais, os familiares de doentes e mortos e os médicos que estão vivendo o pesadelo da pandemia.

Em seguida, Bolsonaro festejou “a marca de 100 milhões de doses de vacinas distribuídas a Estados e municípios”. Trata-se de escárnio: conforme constatou a CPI da Pandemia, o Brasil poderia ter 150 milhões de doses até maio passado, se o governo não tivesse sabotado a compra de vacinas quando foram oferecidas.

Segundo o presidente, “o Brasil é o quarto país do mundo que mais vacina no planeta”. No entanto, levando-se em conta o número de vacinados em relação à população, o Brasil é apenas o 79.º no ranking. Somente 10% receberam as duas doses da vacina – e, nesse ritmo, é difícil acreditar que “neste ano todos os brasileiros que assim o desejarem serão vacinados”, como anunciou Bolsonaro. Soa, portanto, como promessa demagógica de campanha.

A ênfase de Bolsonaro na vacinação poderia ser uma boa notícia se fosse autêntica, mas sabe-se que é só cálculo político. A maioria dos brasileiros quer tomar a vacina, conforme atestam as pesquisas, e a escassez dos imunizantes tem motivado o mau humor dos cidadãos com o presidente. Pressionado por seus súditos do Centrão, Bolsonaro parece ter sido convencido de que boicotar as vacinas não dá votos.

O presidente foi à TV para se passar por campeão da vacinação também como resposta às revelações chocantes da CPI da Pandemia. Durante a semana não faltaram depoimentos demonstrando como Bolsonaro fez de seu governo uma cidadela do negacionismo científico – um dos fatores cruciais para que estejamos perto de atingir 500 mil mortos pela pandemia.

Num dia, falou a oncologista Nise Yamaguchi, referência bolsonarista na defesa da cloroquina contra a covid-19. Incapaz de provar a seriedade dos “estudos” que citou para propagandear o elixir, a doutora, no entanto, demonstrou ter as qualidades exigidas por Bolsonaro: sustentou a mistificação mesmo diante de evidências em contrário.

No dia seguinte, falou a infectologista Luana Araújo, que havia sido convidada para chefiar a secretaria do Ministério da Saúde que centraliza o combate à pandemia, mas acabou dispensada depois de apenas dez dias de trabalho. O depoimento deixou claro por que a doutora foi preterida: é defensora da ciência contra o curandeirismo, algo inaceitável para Bolsonaro.

Nessa toada obscurantista, o “estadista” de fancaria que Bolsonaro incorporou na TV aproveitou também para faturar a alta do PIB e para dizer que “estamos avançando no difícil processo de privatizações” – uma falsidade que pode ser atestada por qualquer um dos vários assessores do Ministério da Economia que pediram demissão por frustração com o atraso nas privatizações.

Bolsonaro não citou nenhuma vez a palavra “cloroquina”, mas também não mencionou a palavra “reformas”. Segundo reportagem do Estado, o presidente já disse ao ministro Paulo Guedes que não quer mais a reforma administrativa. Informado por Guedes, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, questionou em público: “Há o compromisso do Executivo com a reforma administrativa?”.

É óbvio que não há, porque nunca houve. Para Bolsonaro, vacinas, reformas e privatizações são palavras vazias, que ele usa em seu discurso eleitoreiro para enganar otários.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.