Imunização claudicante

Sem vacinas suficientes, crise atingirá um patamar inimaginável no Brasil

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2021 | 03h00

Em meio à maior tragédia que se abateu sobre o País em mais de um século, a Nação ainda se vê refém de um presidente da República insensível às dores de parentes e amigos das mais de 241 mil vítimas fatais da covid-19 e às aflições de seus concidadãos. Vê-se enredada pela espessa teia de descaso, incompetência e ergofobia de um presidente incapaz de entender a gravidade da crise que o País atravessa e de adotar as melhores medidas possíveis para acabar de uma vez com o flagelo sanitário, social e econômico. A principal delas é uma massiva e rápida campanha de vacinação. Mas a vacinação claudica, para aflição dos brasileiros. 

Um mês após o tímido início da imunização contra a covid-19 no País, a tibieza do governo federal levou ao esgotamento da pouca quantidade de doses que até agora foram destinadas à proteção dos grupos prioritários. E não há previsão segura de quando novos lotes de imunizantes serão enviados aos municípios.

Na cidade do Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (DEM-RJ) informou o óbvio: sem vacinas suficientes, o Rio foi obrigado a interromper o programa de vacinação por pelo menos uma semana. A situação dramática não é muito diferente em outras capitais, como Salvador, Cuiabá e Curitiba. Todas estão na iminência de ter o estoque de doses zerado nos postos de saúde.

O Ministério da Saúde segue a reboque dos acontecimentos, quando em um país minimamente funcional deveria ser o maior protagonista das ações federais no combate à pandemia, principalmente a aquisição de vacinas. Mas, talvez preocupado com sua defesa nas esferas administrativa e criminal, Eduardo Pazuello se mostra muito aquém do que se espera de um ministro da Saúde, especialmente em um momento como este. 

Basta lembrar que, há poucos dias, em audiência no Senado, Pazuello foi incapaz de dizer quando o País terá vacinas o bastante para imunizar toda a população. Uma pergunta básica que um bom ministro da Saúde saberia responder prontamente.

Agora, às pressas, o ministro procrastinador rascunha um plano de vacinação e anuncia, depois de intensa pressão de governadores e prefeitos, a compra de 231 milhões de doses de imunizantes até julho, “o suficiente para dar tranquilidade de proteção à população contra essa doença”, disse Pazuello, especialista em fazer promessas, mas não em cumpri-las. 

Não surpreende que, diante da perigosa inoperância do Ministério da Saúde, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) tenha pedido a demissão de Pazuello por “ter reiteradamente ignorado os prefeitos do Brasil e não ter acreditado na vacinação como a saída para a crise”, disse em nota a entidade municipalista.

Na verdade, o intendente Pazuello não ocupa o cargo que ocupa por sua competência. Ele lá está com a “missão” de cumprir as ordens de Jair Bolsonaro. Caso seja destituído do cargo pelo presidente, nada indica que seu substituto fará muito diferente. Ao País interessa muito mais uma radical mudança da política de saúde do governo federal em relação à pandemia.

Entre um banho de mar e outro, Bolsonaro não dá sinais de que isso vai ocorrer. Suas preocupações passam ao largo da imunização em massa da população, única maneira de salvar vidas e permitir a tão desejada retomada da atividade econômica. Países que apostaram na vacinação de seus cidadãos como o caminho para sair da crise já começam a colher os frutos da boa decisão. Veja-se o que ocorre em Israel. É notável a queda do número de internações e mortes à medida que mais pessoas são vacinadas. Mesmo nos Estados Unidos, país que ainda mantém uma média de mil mortes diárias, pouco a pouco se observa a queda nas internações e nos óbitos. A média nacional já foi de 3 mil mortes por dia.

Não há outra saída para essa crise que não seja a vacinação de todos os brasileiros o mais rápido possível. Trata-se da mais alta prioridade nacional. A sociedade já se mobiliza em torno dessa causa. Mas, sem a pronta ação do governo, essa crise não terá fim tão cedo e, pior, poderá atingir um patamar inimaginável.

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