Imunização urgente

Um dos efeitos mais perniciosos da pandemia foi desarticular a imunização de outras doenças, como sarampo.

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2022 | 03h00

Uma das sequelas mais perversas da pandemia foi ressuscitar doenças erradicadas. Com ela, o alcance vacinal no Brasil, que já vinha declinando, despencou. Agora que a pandemia caminha para o fim, os epidemiologistas estão em alerta: a combinação entre a baixa imunização e a volta das interações sociais pode ser catastrófica, especialmente para as crianças.

O fenômeno é global. Segundo a OMS, nas últimas décadas as vacinas evitaram a morte de 4 milhões a 5 milhões de crianças por ano no mundo. Mas desde 2010 a cobertura se estagnou. No Brasil, entre os anos 1980 e 2000 a cobertura cresceu expressivamente, mantendo-se elevada até 2015. Nesse ano e no seguinte a rubéola e o sarampo foram erradicados. Mas, com a queda da vacinação, em 2018 registraram-se mais de 10 mil casos de sarampo e, em 2019, mais de 20 mil, com dezenas de mortes. 

Especialistas indicam uma combinação de fatores para a queda, como a ilusão de que algumas doenças já não existem; o desconhecimento de um calendário vacinal crescentemente complexo; a desinformação e o medo infundado de reações adversas; ou falhas na infraestrutura e capacitação dos profissionais. Todos esses problemas foram agravados na pandemia.

Em 2021, de 15 vacinas que protegem contra 17 doenças graves, pelo menos 9 ficaram abaixo dos índices recomendados. Entre 2015 e 2021, a média da cobertura caiu de 95% para 60%, retrocedendo aos anos 80. Entre 2018 e 2021, a imunização contra a tuberculose caiu de 95% para 65%; contra a poliomielite, de 89% para 66%; contra caxumba, sarampo e rubéola, de 93% para 70%.

Além de a população brasileira padecer das mesmas rupturas comportamentais e estruturais que desarticularam a imunização global na pandemia, quis o destino que o País estivesse sob o comando de um demagogo incompetente e obscurantista. Na gestão de Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde teve quatro ministros, e o Programa Nacional de Imunizações, cinco coordenadores. No começo de 2020, a queda da imunização no mundo foi de 30%; em alguns Estados brasileiros chegou a 60%.

Em 2022, o risco para doenças altamente transmissíveis é alarmante. Algumas até caíram com o distanciamento social e as máscaras. Mas, com a volta da normalidade, há o risco de um surto de sarampo, do aumento de casos de difteria ou coqueluche ou do reaparecimento da pólio.

A reversão depende de esforços como a descentralização da vacinação por parte dos municípios até a capacitação dos serviços de saúde e campanhas ostensivas de conscientização. As vacinas estão disponíveis. Quando não estão na prática, há amplos meios legais para disponibilizá-las.

Compreensivelmente, as pessoas querem virar a página da pandemia. Mas suas sequelas permanecem. As crianças eram o grupo menos vulnerável à covid. No esforço coletivo para proteger os vulneráveis, elas foram castigadas em sua educação e saúde mental. A menos que a sociedade e o poder público empreendam um esforço massivo para recolocar a imunização nos trilhos, o risco é que as crianças paguem também com sua saúde física e a própria vida o preço mais alto da pandemia.

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