Incerteza

O Brasil deve se manter fiel a seu propósito de ajudar o país vizinho a realizar uma transição pacífica de governo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2019 | 03h00

Violentos confrontos nas fronteiras da Venezuela com o Brasil e a Colômbia, no fim de semana passado, impediram a entrada da ajuda humanitária há muito esperada por um povo cada vez mais faminto e doente. Se faltava uma imagem mais nítida da torpeza do regime do ditador Nicolás Maduro, a fotografia de um caminhão carregado de alimentos em chamas, após ser atacado por um grupo de milicianos pró-governo, é o sinal evidente de que, em seu ocaso, o caudilho já não se preocupa em simular a compaixão que nunca teve pelo povo venezuelano.

Ao menos 3 pessoas morreram e 31 ficaram feridas em confrontos entre soldados da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e cidadãos venezuelanos na cidade de Santa Elena de Uairén, a poucos quilômetros da fronteira com o Brasil, em Roraima. Naquela região fronteiriça deveria ter sido feito o carregamento dos caminhões venezuelanos - por voluntários venezuelanos - que transportariam a ajuda humanitária até os mais necessitados em seu próprio país. No entanto, após avançarem poucos metros no país vizinho para a transferência das cargas, os caminhões com comida e remédios tiveram de voltar ao Brasil com as caçambas cheias. Também houve ataques similares aos comboios de ajuda humanitária na fronteira com a Colômbia.

Entre as vítimas dos ataques perpetrados pela GNB há cidadãos venezuelanos radicados no Brasil. Alguns militares brasileiros que servem na região viram na ação venezuelana uma “agressão” ao País. “Foi um episódio lamentável. Ninguém esperava que isso acontecesse. Recebemos uma chuva de gás lacrimogêneo vindo do território venezuelano e esperamos que isso não fique assim”, afirmou o coronel José Jacaúna, chefe da Operação Acolhida, em Roraima.

A declaração causou grande “desconforto e mal-estar” no governo e na cúpula militar, que têm agido com exemplar serenidade nesta crise. Um general ouvido pelo Estado minimizou o incidente. “O clima é o clima da Venezuela. Os venezuelanos estão se enfrentando e (o conflito) pode acabar transcendendo o outro lado porque estão na linha de fronteira. Vamos fazer o quê? Declarar guerra à Venezuela? Pelo amor de Deus. Isso não existe.”

A temperança das autoridades brasileiras na gestão da crise é tranquilizadora, pois não faltaram oportunidades para bravatas. Na semana passada, o vice-presidente Hamilton Mourão, que ontem participou da reunião de emergência do Grupo de Lima, na Colômbia, já havia afirmado que o Brasil não avançaria sobre o território venezuelano e tampouco participaria de uma intervenção militar no país, o que seria, de fato, um despautério. No domingo, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, reforçou que “não há possibilidade de haver um confronto militar entre Brasil e Venezuela”, mesmo após o fracasso da operação de envio da ajuda humanitária e o recrudescimento dos conflitos na fronteira.

Diante da incerteza quanto ao destino da Venezuela, cabe ao governo brasileiro manter sua firme disposição de enviar ajuda humanitária aos venezuelanos e empreender todos os esforços necessários - respeitando as leis, os tratados internacionais e nossa tradição diplomática - para que esta ajuda chegue aos necessitados. Concluída a reunião do Grupo de Lima, Mourão reforçou a necessidade de uma ação conjunta para solucionar a crise venezuelana, “mas sem uma intervenção militar”. Já o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, voltou a afirmar que “todas as opções estão sobre a mesa”, deixando aberta a possibilidade de uma ação mais incisiva na Venezuela.

O Brasil deve se manter fiel a seu propósito de ajudar o país vizinho a realizar uma transição pacífica de governo. Não será fácil, pois Maduro dá mostras de inusitado apego ao poder e mantém o controle sobre os meios de cooptação da cúpula militar que lhe garante sustentação, a despeito da enorme rejeição popular. A solução pacífica da crise é o melhor que se pode fazer.

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