Incertezas entre as fronteiras

Em meio às crises artificiais fabricadas por Trump, é preciso ter clareza sobre a natureza e a dimensão da verdadeira crise

Notas e informações, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2019 | 03h00

Na noite de 7 de junho, último dia útil antes do prazo imposto pelo presidente norte-americano, Donald Trump, ao México para que reduzisse o fluxo de imigrantes ilegais, sob pena de sofrer tarifações gradativas, os dois países anunciaram um compromisso que suspendeu a sanção. Apesar do alívio geral e de ambas as partes terem celebrado o acordo como uma vitória, ele deixa boa dose de incertezas no ar. Primeiro, porque os termos são um tanto nebulosos: numa coletiva de imprensa, Trump brandiu um papel que conteria as condições acordadas, mas não o publicou. Além do que foi anunciado, a imprensa teve de inferir o resto pelas fotos tiradas na hora. Depois, pela real efetividade desse pacto em relação ao foco da crise: a evasão migratória da América Central. Finalmente, pelo modo como foi obtido: Trump lançou mão de seus métodos mais questionáveis como empresário para negociar questões de Estado, chantageando sua contraparte com sanções comerciais para obter resultados não comerciais, o que abre um precedente inquietante.

O temor é de que Trump se sinta encorajado a utilizar o expediente em mais ocasiões. “Ele tem experiência em capturar a atenção das pessoas com algo que elas não estão esperando ou com uma reversão da última coisa que ouviram, gerando uma manchete com um tweet”, disse Gwenda Blair, sua biógrafa. “Ele segue o adágio: ‘Se você quer uma multidão, comece uma briga’.”

Foi o que fez com o México, mas sua vitória é questionável. Os dois principais pontos do acordo foram o envio de 6 mil homens da Guarda Nacional mexicana para a fronteira com a Guatemala e o compromisso do México de abrigar os imigrantes detidos nos EUA enquanto eles aguardam o julgamento das Cortes americanas. Mas o primeiro já fora preanunciado em março e o segundo só foi formalizado, mas já estava em andamento desde dezembro.

“É um padrão bem simples”, disse o líder democrata, Chuck Schumer, ao Senado. “O presidente põe na mesa uma posição maximalista, mas nunca define claramente seus objetivos. Desse modo, após recuar a um canto, ele pode utilizar um acordo de qualquer tipo, mesmo que seja meramente uma folha de figueira, para justificar a retratação de qualquer política equivocada. Então ele declara vitória, tendo feito pouco ou nada para solucionar o problema subjacente.”

Em meio às crises artificiais fabricadas por Trump, é preciso ter clareza sobre a natureza e a dimensão da verdadeira crise. O primeiro ponto é que, se no último semestre as detenções na fronteira entre os EUA e o México aumentaram fortemente, atingindo o maior patamar desde 2007, o contingente de 361 mil imigrantes apreendidos ainda está bem abaixo dos picos históricos das décadas de 2000, 1990 e 80, que excediam 1 milhão ao ano. Depois, as caravanas não foram originárias do México: quase todos os seus integrantes são hondurenhos, guatemaltecos, salvadorenhos e nicaraguenses fugindo da penúria e da criminalidade. Outra mudança radical em relação às levas passadas é que a maioria das detenções é de pessoas tentando a sorte com suas famílias.

O acordo costurado à força por Trump pode garantir de pronto mais detenções por parte dos mexicanos, mas não afeta em nada esse quadro. O secretário de Estado Mike Pompeo disse que os EUA estão conversando com nações centro-americanas e inclusive o Brasil, rota de passagem de imigrantes africanos e asiáticos. Mas pouco ou nada foi confirmado pelos governos dessas nações.

Enquanto isso, continua suspensa sobre o México uma espada de Dâmocles, pesada e incerta: ele tem 90 dias para reduzir o fluxo, mas, de novo, quem definirá se essa redução foi satisfatória será Trump. E a definição, a julgar pelo seu histórico, dependerá de sua conveniência política. Se o México for “bem-sucedido”, Trump propalará isso como um triunfo de suas táticas de intimidação. Se não for, utilizará a crise como uma alavanca em busca de mais poder para finalmente erguer o seu muro.

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