Incertezas na política de juros

Cautela é a palavra de ordem no BC. Não se descarta novo corte dos juros em fevereiro, mas será preciso enxergar bem melhor o caminho antes que se dê um passo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2019 | 03h00

Cautela é a palavra de ordem no Banco Central (BC), depois de baixar os juros para 4,50% e avançar mais um pouco em terreno estranho e talvez perigoso. Não se descarta um novo corte em fevereiro, mas será preciso enxergar bem melhor o caminho antes que se dê um passo adiante. Insegurança é uma das marcas, talvez a mais importante, da ata emitida ontem pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, seis dias depois de sua última reunião. Há novidades no sistema financeiro. Além disso, “faltam comparativos na história brasileira para o atual grau de estímulo”. Desses fatores nasce a incerteza sobre a reação dos preços: poderá o Copom, sem querer, jogar combustível na inflação?

Novidades no financiamento incluem a menor participação do Estado, o maior papel do crédito com recursos livres e a nova importância do mercado de capitais. Sem menção na ata, as mudanças com certeza incluem também a ação das fintechs e outras inovações derivadas da tecnologia. Falta verificar o impacto dessas mudanças na transmissão da política monetária. Alterações de juros chegarão mais rapidamente à ponta do sistema? Uma política mais potente produzirá efeitos muito diferentes daqueles pretendidos pelos integrantes do Copom?

Se esse for o caso, cortes de juros e outros estímulos poderão contribuir mais fortemente para o aumento da atividade, o uso mais amplo da capacidade instalada e a redução mais pronta do desemprego. Todos esses efeitos são muito desejáveis, depois de anos de economia emperrada, mas quem conduz a política monetária precisa de ideias claras sobre a evolução dos negócios e da oferta de vagas. A ampla capacidade ociosa de máquinas, equipamentos, instalações e mão de obra tem sido, convém assinalar, uma importante referência para o avanço do Copom nas decisões de estímulo à reativação econômica.

Além de ver mais claramente como se transmite, hoje, a política monetária, os membros do Copom ainda precisarão conferir como ficarão os negócios depois da liberação de recursos do FGTS e do PIS-Pasep. Com o saque desse dinheiro, deve acentuar-se o aumento de atividade, já observado a partir do segundo trimestre. Mas o efeito, segundo a ata do Copom, provavelmente será mais concentrado nos três meses finais deste ano. Diminuído o impacto, o crescimento econômico deverá ser gradual, como tem sido até agora.

Em fevereiro, quando se reunirem de novo, os membros do Copom terão de juntar e organizar as informações para compor esse novo quadro, reavaliar as perspectivas de crescimento econômico e mais uma vez decidir como ficarão os juros. Na melhor hipótese, já terão uma ideia mais clara de como se transmitem, nas atuais condições do mercado financeiro, os efeitos da política monetária. Poderão, nesse caso, avaliar com mais segurança como os estímulos afetarão a atividade e os preços. É muito difícil dizer, no entanto, se em apenas três meses conseguirão um avanço tão relevante em suas condições de informação e de análise de perspectivas.

Por enquanto, o Copom tem a segurança de atuar num ambiente de ampla ociosidade. Sobra capacidade em capital físico e, principalmente, ainda há muita mão de obra disponível no mercado. É um contingente bem superior a 20 milhões de pessoas desocupadas ou subutilizadas. Fontes empresariais estimam uma ocupação temporária, neste fim de 2019, bem maior que a de um ano antes. Se as expectativas melhorarem, talvez uma boa parcela desses empregos se torne duradoura, depois dos ajustes do início do ano.

É difícil, no entanto, imaginar uma ampla redução do desemprego e um aumento sensível das pressões inflacionárias, em 2020, se o crescimento se mantiver na vizinhança dos 2,20% hoje estimados. Há algo positivo, afinal, nas dúvidas e na insegurança discutidas na última reunião do Copom.

Se a política monetária se tiver tornado, de fato, mais eficiente e mais rápida em sua transmissão, a reativação econômica poderá ser mais pronta. O BC terá de se preocupar um pouco mais cedo com o risco de inflação, mas valerá a pena pagar esse preço.

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