Incivilidade e desinformação

Queimar monumentos não apaga o passado, mas exalta a ignorância que grassa no presente

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 03h00

Pela quarta vez em dois meses, milhares de manifestantes saíram às ruas de cerca de 300 cidades do País para protestar contra o presidente Jair Bolsonaro e pedir a sua cassação. A agenda dos protestos no sábado passado foi marcada, novamente, pela crítica à gestão temerária da pandemia de covid-19 pelo governo federal, ao desemprego e à alta dos preços dos alimentos. A combinação nociva destes três fatores ilustra bem a inépcia do pior presidente da história, cuja ergofobia tem levado milhões de brasileiros ao estado de insegurança alimentar, além da insegurança sanitária à qual toda a população já está submetida.

A nova jornada de protestos fechou uma semana particularmente negativa para Bolsonaro, em intempestiva – e ilegal – campanha pela reeleição. Novas manifestações contra o governo já estão marcadas para os meses de agosto e setembro. Ligadas a movimentos de centro, centro-direita e direita, estas têm potencial para atrair ainda mais manifestantes, até aqui restritos, principalmente, a movimentos e partidos de esquerda e extrema-esquerda.

Em São Paulo, o protesto no dia 24 passado reuniu menos gente do que o observado nos três anteriores, embora o que se viu na Avenida Paulista está longe de representar uma manifestação inexpressiva. Ainda que de forma dispersa, os manifestantes ocuparam 8 dos 15 quarteirões da via.

O receio do contágio pelo coronavírus ainda desencoraja muitos cidadãos de aderir às manifestações de rua, em que pesem o avanço da vacinação e o fato de os organizadores destes protestos garantirem a oferta de máscaras e álcool em gel, além de recomendarem o distanciamento entre os manifestantes. As imagens, porém, mostram que, na prática, o estrito respeito às normas sanitárias ainda está muito longe do ideal.

Outro fator que contribui para repelir a adesão dos muitos cidadãos moderados que se opõem ao governo Bolsonaro, tão ou mais decisivo do que aquele, são os episódios de violência, quase sempre praticados por vândalos que se aproveitam das manifestações ordeiras para fazer valer sua pauta de reivindicações – se é que há uma – na base do grito, da baderna, da quebradeira. Mais uma vez, ao final da manifestação na Avenida Paulista, os baderneiros confrontaram policiais militares e se lançaram contra vitrines, pontos de ônibus, estações de metrô e tudo o mais que pudesse ser rapidamente destruído.

O episódio mais grave ocorreu a 10 km da Avenida Paulista. Cerca de 20 pessoas, ligadas a um obscuro grupo chamado Revolução Periférica, atearam fogo em pneus na base da estátua do bandeirante Borba Gato, na Avenida Santo Amaro. O monumento foi danificado e, infelizmente, ninguém foi detido, segundo a Polícia Militar.

A incivilidade criminosa foi o gatilho para que uma onda de desinformação varresse as redes sociais, locus onde se travam acalorados debates, nem sempre bem respaldados pela verdade factual. Basta dizer que os defensores da assim chamada “reparação” classificaram o bandeirante paulista como “genocida” e “fascista”, malgrado o genocídio e o fascismo serem conceitos formulados mais de 200 anos após a morte de Borba Gato.

Independentemente da visão que cada um possa ter da história dos bandeirantes do século 17, e de Manuel de Borba Gato, em particular, a história de um país não pode ser apagada. Em uma nação que se pretende civilizada, a história é contada, contextualizada e aprendida. No limite, a eliminação de símbolos de um passado que se pretende esquecer – ainda que esta faina seja inútil – deve ser debatida pela sociedade no ambiente próprio, qual seja, o Parlamento.

De tempos em tempos, sociedades no mundo inteiro se veem às voltas com o revisionismo histórico. Alguns pretendem assim justificar a sua sanha destruidora. Mas derrubar estátuas ou atear fogo em monumentos históricos – mesmo aqueles de valor estético bastante duvidoso – não têm o condão de apagar o passado como em um passe de mágica. Antes, exaltam a ignorância que grassa no presente.

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