Incompetência criminosa

Restrição de exportação de seringas e agulhas é mais uma trapalhada de um governo dito ‘liberal’

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2021 | 03h00

É improvável – mas não impossível para um governo dado a absurdos – que a presença do simpático Zé Gotinha no lançamento do chamado “plano” de vacinação contra a covid-19 do Ministério da Saúde, em meados de dezembro passado, tenha confundido algumas autoridades presentes àquela cerimônia no Palácio do Planalto quanto ao método correto de imunização contra a covid-19. Sempre se soube que as vacinas contra o novo coronavírus são injetáveis.

Portanto, o retumbante fracasso da pasta em adquirir milhões de seringas e agulhas no final do ano passado só pode ser fruto de um misto de incompetência administrativa, negação da realidade e falta de planejamento que marca de forma indelével a atuação do governo de Jair Bolsonaro no combate à pandemia. A própria realização do pregão àquela altura, passados dez longos meses de pandemia, dá a exata medida do descaso do governo federal pelo drama que aflige a Nação.

Convém lembrar que, dos 331 milhões de unidades de seringas e agulhas que o Ministério da Saúde teria de adquirir para dar conta de uma vacinação em larga escala, só houve oferta para 7,9 milhões de kits, número que corresponde a 2,4% da necessidade do País.

Bem a seu feitio, Bolsonaro jogou no colo dos fornecedores a responsabilidade pelo resultado pífio do certame. Entre uma braçada e outra no show aquático que promoveu no litoral de São Paulo, o presidente da República insinuou que os fabricantes de materiais hospitalares, cientes da condição de grande comprador do governo federal, elevaram propositalmente os seus preços. Que Bolsonaro nada conheça de Economia, entre outras matérias, é fato público e notório. Mas que desconheça a lei da oferta e da procura é demais até para seus padrões.

Ainda mais aterrador do que o fracasso na compra de insumos tão básicos quanto seringas e agulhas foi a reação de um governo dito “liberal” a mais uma das trapalhadas do general intendente ora à frente do Ministério da Saúde. A pedido de Eduardo Pazuello, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia publicou uma portaria no último dia de 2020 restringindo a exportação daqueles materiais. A venda para outros países de seringas e agulhas fabricadas em território nacional passou a depender de uma “licença especial de exportação de produtos para o combate à covid-19”, como já acontece com respiradores, máscaras, luvas e outros equipamentos de saúde que precisam de aval prévio do governo federal para serem exportados.

Durante tempo demasiadamente longo, o governo federal não se planejou para viabilizar um plano nacional de vacinação contra a covid-19 que fosse digno do nome. Jair Bolsonaro jamais quis uma vacina contra o novo coronavírus para os brasileiros. Nas raras vezes em que se manifestou favoravelmente em relação à imunização da população não o fez senão por conveniência política, atento que está aos indicadores de popularidade capturados pelas pesquisas de opinião, uma das poucas coisas capazes de fixar sua atenção.

Diante da inação do Palácio do Planalto, não restava alternativa à indústria de insumos médicos do País a não ser negociar seus produtos com compradores mais previdentes. No Ministério da Saúde está alguém que outra coisa não faz a não ser obedecer cegamente ao chefe. Assim, se Bolsonaro jamais quis uma vacina, por que o titular da pasta haveria de empreender esforços para viabilizá-la? Não causa espanto que Eduardo Pazuello seja o ministro da Saúde mais longevo do governo Bolsonaro desde que a OMS declarou a pandemia de covid-19, há quase um ano.

Não foi por falta de alerta que o governo federal não agiu como se espera de governos minimamente sérios no enfrentamento da pandemia. Não foram raros os avisos das associações que representam a indústria nacional quanto aos riscos de retardar a compra dos insumos que agora levam o governo federal à correria e à restrição de exportações. Agora, o que falta? Confisco?

Enquanto isso, os brasileiros assistem ao início da vacinação em mais de 50 países sem saber quando chegará sua vez.

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